DIA DA MULHER E OS CINQUENTA TONS DE RETROCESSO

Por vezes, surpreendo-me com minha condição de mulher, num contexto em que, conquistados muitos direitos, a igualdade parece ter chegado à vida da mulher pós-moderna, sem, no entanto, ter sido capaz de alforriá-la de seus entraves mais profundos.

Quando vejo o sucesso que se tornou o livro “Cinquenta tons de cinza”, bem como sua versão cinematográfica, deparo-me com a vergonha de constatar que as mulheres, minhas irmãs e semelhantes, apesar de toda evolução que exigiram e pela qual lutaram, andam retrocedendo, ao permitirem-se o lugar de humilhação que a trama, muito insossa, a meu ver, sugere.

A mulher retratada no referido best-seller não passa de uma interesseira, de caráter e valores duvidosos, que se deixa seduzir pelo dinheiro e pelos gostos peculiares do magnata Christian Grey. Essa mulher, definitivamente, não me representa. Não, eu não compreendo o porquê dos suspiros e gemidos de minhas semelhantes no cinema.

Logo essa mulher que se vangloria por suas conquistas ao longo dos séculos, parece retroceder agora a épocas ancestrais, nas quais, ao macho era dado o poder de subjugar a fêmea, imputando-lhe as maiores humilhações.

Entristece-me constatar isso, assim como entristece-me constatar que literaturas desse gênero tenham sido infinitamente mais lidas que nomes de mulheres verdadeiramente mulheres, como: Clarice Lispector ou Jane Austen ou ainda Simone de Beauvoir...

O que comemorar então nesse 8 de março?

Eu, particularmente, celebro a existência e a resistência daquelas que ainda sabem ser mulher, que, contrariando todas as tendências ao retrocesso, mantêm-se plenamente conscientes de seu papel de Mulher. Aquelas que não se vendem, nem se expõem em demasia pelas ruas, tal qual pedaços podres de carne. Aquelas que cultivam valores de honestidade e decência e não se envergonham deles. Aquelas que valorizam o espaço que a mulher conquistou a duras penas, e não o invalidam com postura e atitudes vergonhosas. Dignas de respeito, não de desmoralização.

Saudemos as mulheres verdadeiras! E que cada uma delas tenha a decência da autonomia de conferir à própria vida o tom ou os tons que bem desejar!

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