Ouvimos por inúmeras vezes ao longo da pandemia de Covid-19 que no “novo normal” – momento posterior à maior crise sanitária da história recente – teríamos uma outra realidade. No imaginário de alguns, aquela sensação de fim de mundo parecia prometer que, se sobrevivêssemos, seríamos seres humanos melhores. Será?
O pop rock dos mineiros Jota Quest cantava nos idos dos anos 2000 “vivemos esperando o dia em que seremos melhores (melhores); melhores no amor; melhores na dor; melhores em tudo”. Em que melhoramos?
Temos assistido – estarrecidos – as consequências de uma sociedade que fomenta o ódio, a intolerância e a violência. Em menos de duas semanas, dois ataques gravíssimos a escolas tiveram vítimas fatais e deixaram tantas outras pessoas com marcas que levarão pelo resto da vida; além de inúmeras outras ameaças, que estão se tornando cada vez mais corriqueiras.
É uma sociedade que está adoecida e que não consegue perceber as implicações das escolhas que faz e dos discursos que reproduz.
Não percebe que fazer arminha com os dedos da mão – em escolas e em igrejas, como viralizou nos últimos anos – não é uma mera brincadeira de criança; e que ter um representante no maior cargo do executivo federal – na Presidência da República – propagando o armamento em massa da população, em voz que ecoa o extermínio da oposição, como certa vez disse o ex-mandatário do país em visita ao Acre que iria “fuzilar a petralhada”, estimulando práticas violentas, temperadas com discursos de ódio, teria consequências reais. E teve!
Uma sociedade tóxica, que propaga uma masculinidade assentada na superioridade do macho, hétero, branco, sobre os demais seres, o qual, temeroso em perder seus privilégios, parte para violência como meio para manter seu reinado. Não à toa, grande parte desses grupos extremistas em ascensão são formados por supremacistas brancos.
Segue cantando a banda: “vivemos esperando, dias melhores, dias de paz”... Paz que só se fará presente quando os discursos de ódio e violência não forem normalizados ou relativizados; quando atos criminosos não forem traduzidos como liberdade de expressão ou uma simples brincadeira, porque quem conhece o sujeito sabe que ele é um “cidadão de bem”!
Serão dias melhores quando nossas escolas contarem com as condições necessárias, enquanto espaço de sociabilidade, para que os estudantes desenvolvam todo seu potencial; espaço que permita a integração da diversidade no horizonte de uma prática em prol dos direitos humanos; onde impere a empatia, tolerância e respeito; e que seu quadro de profissionais seja valorizado, estimulado e reconhecido, não só pelo Estado – a partir de salários dignos e condições físicas e estruturais de trabalho –, mas por toda uma sociedade, que, sadia, sabe o seu valor!
Longe de serem espaços vigiados e tomados por policiais, como a proposta requentada do atual governo do estado de São Paulo em aumentar o policiamento nas escolas; ou, ainda, se tornarem espaços de culto e oração, como defendem alguns religiosos – e mesmo leigos – na adoção do ensino religioso, ignorando que o Estado é – e deve ser – laico.
Escolas que – assim como a política de educação como um todo – não sejam tratadas como mercadoria, numa sociedade que, sendo capitalista, deseja lucrar com seu sucateamento; espaços que não fiquem à mercê das grandes fundações e empresas, cuja ideologia prega uma “escola sem partido”, mas que tomam partido na defesa de seus interesses e privilégios.
“Vivemos esperando” do esperançar que nos fala o mestre Paulo Freire, fagulhas que virem fogo e nos coloquem em movimento com vistas a uma outra realidade, porque “é preciso ter esperança, mas ter esperança do verbo esperançar; porque tem gente que tem esperança do verbo esperar. E esperança do verbo esperar não é esperança, é espera. Esperançar é se levantar, esperançar é ir atrás, esperançar é construir, esperançar é não desistir! Esperançar é levar adiante, esperançar é juntar-se com outros para fazer de outro modo...”
Talvez assim – ou só assim – teremos dias melhores e poderemos dizer que melhoramos!
Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo
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