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SUB-VERSÃO

Dom Diego

“Professora, você quer uma flor?” – perguntou-me Diego, com seu jeito pueril de perguntar. Não, ele não perguntou se eu aceitava uma flor, não foi esse o verbo que escolheu. Ele perguntou se eu queria. E querer é um verbo de uma potência extraordinária.

E foi com ele que Diego ofereceu-me um pouco de gentileza, logo que entrei no pátio, ainda um tanto vazio, da escola.

Pátios escolares sem crianças são absurdamente vazios, porque falta-lhes vida, energia, falta-lhes a curiosa alma dos pequenos.

“Eu quero!” – respondi, animada com a novidade feliz que aquela pergunta, feita assim de forma tão espontânea e inocente me causara. Demorou um tempinho para que as mãozinhas ágeis encontrassem na mochila, cheia de livros, sonhos, cadernos, curiosidade, a flor feita de E.V.A. Sem caule, porque a verdadeira gentileza a nada se prende, nem de nada depende. Linda, como minha tarde também ficou depois desse encontro.

Impressionante como um pequeno gesto pode modificar as energias e o tom do dia de alguém.

Ao aceitar, ou melhor, querer a flor de Diego, fora como se tivesse também aceitado o fato de que todos nós carecemos de um pouco de gentileza e poesia. E mais, foi um lembrete de que, por vezes, é preciso arriscar, ousar mesmo aceitar, querer a oferta a gentileza. Ousar ser gentil em um mundo como o nosso, no qual tudo que se tem ofertado é ódio, é um ato por demais corajoso.

Daquele dia em diante, passei a olhar o pequeno e inquieto Diego com outros olhos. De repente, aquele menininho de feições infantis, agigantou-se diante de mim. Era agora, Dom Diego, um valente cavaleiro, que vivia a percorrer os mais longínquos reinos, em busca de justiça e paz. Sua generosidade e sua gentileza eram suas marcas registradas, e não havia lugar onde sua fama não houvesse chegado.

Por toda sua longa vida, lutara pelos nobres ideais nos quais acreditara. Reza a lenda, que, quando confrontado por seu maior inimigo, o descaso, ofereceu-lhe uma flor. 

Lançada ao chão pelo ignóbil homem, criou raízes e sua beleza exuberante estendeu-se, feito longo tapete colorido, forrando todo o Reino da Alegria. 

Dom Diego vive ainda hoje nos sonhos daqueles que insistem em sonhar um mundo melhor, mais justo e mais feliz. E toda vez que alguém ousa ofertar uma flor, sua memória é honrada e o Eterno sorri.

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