“E daí?” – disse o homem à mulher que o questionava a respeito do uso da máscara de proteção, agora obrigatório.
“E daí? Eu uso se eu quiser, disse, o que que você tem a ver com isso? Vai procurar o que fazer, cuida da sua vida, baranga!”
E a mulher, nitidamente envergonhada, simplesmente afastou-se, acredito que na intenção de não ser atingida por nenhuma gotícula sequer do ódio vociferado por aquele homem, a quem ela entendia como seu semelhante.
É... parece mesmo que a ignorância e a completa falta de noção andam tomando conta desse país que eu amo.
“E daí?” sempre foi para mim sinônimo de indiferença. É como costumamos responder a respeito de algo que não nos afeta de forma alguma, algo que não é relevante, que não faz diferença nenhuma.
Foi assim, usando essa expressão “pobre” de nossa linda língua portuguesa que o presidente respondeu à imprensa quando questionado a respeito do crescente número de mortes causadas pela COVID-19 em nosso país.
“E daí? Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre”, essa foi a declaração feita pelo chefe de Estado.
Isso mesmo, um presidente, diante das mortes de seus compatriotas, muitos dos quais, seus leitores, categoria essa na qual não me incluo, respondeu assim à investida da imprensa com um sonoro “E daí?”
E ainda, julgo eu, levianamente envolveu um conceito que deve desconhecer, dado seu raso conhecimento acerca de quase tudo, ao se referir à ideia do Messias. O Messias autêntico deve mesmo ter se sentido ultrajado quando dessa fala, afinal, deve causar um certo asco ouvir seu nome santo na boca de um defensor de torturadores.
Não, senhor Jair Messias Bolsonaro, o senhor tem razão, o senhor não faz milagre, mas confesso, se não fizesse tanta bobagem, já me daria por satisfeita, já que o papel de presidente nunca o fará.
É quase que como se um médico, quando questionado sobre a morte de um de seus pacientes, respondesse à família do mesmo, e daí que ele morreu?
A meu ver, pelo absoluto descaso que essa colocação conota, trata-se de uma fala criminosa. Criminosa, sim, porque sei que não se pode esperar empatia da parte de todos, mas quando o chefe de uma nação se manifesta dessa forma inescrupulosa acerca de seus mortos, como que se isentando de qualquer responsabilidade, para não dizer, comoção, porque seria demais, trata-se de uma fala criminosa!
E daí, povo brasileiro, que vocês estão morrendo? E daí? Suas vidas não representam nada além de números para mim e para minha corja de seguidores.
“Eu não sou coveiro”, foi outra “pérola” dita pelo mesmo senhor, em plena pandemia, enquanto corpos acumulam-se nos cemitérios.
Ah, se todos nós respondêssemos com esse mesmo nível de irresponsabilidade e canalhice quando questionados sobre algo...
É como se o professor perguntado sobre como faria para dar aulas aos alunos e tratar de que eles não fossem prejudicados com o fechamento das escolas, respondesse: “Eu não sou youtuber!”
Ou ainda: “E daí? E daí que os alunos vão ficar sem aulas?”
Eu, na condição de ser humano e professora por vocação e paixão, jamais cogitaria responder algo semelhante. Muito pelo contrário, eu tenho visto e vivenciado o esforço exaustivo dos professores para, adaptando-se a essa nova realidade que nos foi imposta, oferecerem o melhor para seus alunos, ainda que forçosamente a distância.
Por isso talvez me enoje tanto ouvir frases como as citadas nesse texto sendo proferidas por aquele que supostamente (eu sei que não), mas que supostamente deveria ter sido eleito para zelar pelo bem de seu povo.
“E daí? Quer que eu faça o quê?”
Eu de fato nunca quis, mas houve quem quisesse que o senhor fosse presidente. Não é, nunca foi, nunca será. Falta-lhe brio, falta-lhe o mínimo de compostura, falta-lhe polidez, falta-lhe dignidade. Agora, isso está mais claro do que nunca!
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