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Olhar Social

E na sala de jantar...

O que nos move?

O que é inaceitável?

O que nos mobiliza para a luta? ...

São tantas inquietações, cujo pano de fundo é refletir sobre o nosso protagonismo nas lutas e enfrentamentos cotidianos face a tantas demandas e necessidades! 

A apatia, desmobilização e a inexistência de consciência de classe, em contraponto – como escreveu o filósofo alemão Karl Marx (1818-1883), ao dizer que, se não somos donos dos meios de produção (o chamado “patrão”), vivemos da venda de nossa força de trabalho, explorada no âmbito do sistema capitalista – parecem ser um imperativo para nos colocar em movimento, face as condições de vida cada vez mais precarizadas, seja pelo trabalho, ausência de direitos, desmantelamento das políticas públicas etc.

A título de exemplo, enquanto a política de educação em nosso país desmorona, “[...] as pessoas da sala de jantar; são ocupadas em nascer e morrer”, diz a saudosa música dos Mutantes, escrita nos anos de chumbo, em 1969.

Na contramão dessa inação, vários profissionais e estudantes da educação pública federal vêm buscando construir a mobilização necessária em defesa do ensino público, de qualidade e comprometido com as demandas da sociedade. Há pautas específicas das/dos servidores (sejam professores e demais profissionais) a respeito das condições de trabalho, salários corroídos pela inflação acumulada, ausência de planos de carreira na prestação do serviço público, entre outras; há ainda pautas estudantis, sobretudo em relação à ampliação da política de assistência estudantil (sem a qual muitos não conseguiriam concluir o curso); mas há também muitas pautas comuns, em especial no campo da recomposição orçamentária e revogação de um conjunto de leis, que trouxeram inúmeros prejuízos à área nos últimos anos.

Defesa essa necessária, seja do ponto de vista ideológico, em razão de todo desprestígio, negacionismo, descrédito na formação acadêmica, ciência e conhecimento – o que foi muito comum no governo anterior (momento em que estávamos tentando sobreviver), mas que segue presente num cenário de ascensão da ultra direita e do fundamentalismo religioso; defesa também do ponto de vista estrutural, em razão de todo desinvestimento financeiro que a educação pública vem sofrendo, o que impacta diretamente no exercício do trabalho das/dos servidores, na manutenção das/dos estudantes e nas condições físicas das unidades educacionais, tornando os lugares quase inabitáveis.

Cenário que está dado no presente, o que convoca toda uma sociedade à luta – não só a comunidade acadêmica – mas que também diz respeito ao futuro, à medida em que o horizonte é um processo de formação cada vez mais corroído, num mundo do trabalho cada vez mais precarizado – não só aos atuais servidores, mas aos futuros profissionais, que hoje são nossos estudantes, o que certamente fará da luta algo permanente, porque lutar é (e será) uma questão de sobrevivência!

O slogan que vem sendo fomentado “É greve porque é grave”, na educação pública federal, junto às universidades e institutos federais, diz respeito a esse universo. Universo que já não permite que estudantes e profissionais da educação desempenhem seus papéis com maestria e construam uma relação de ensino-aprendizagem – numa perspectiva crítica, reflexiva e transformadora – que, de fato, contribua com as necessidades da própria sociedade e no enfrentamento às várias faces de nossa realidade desigual.

Mas seguimos, sim, na luta em defesa da educação pública em nosso país, reconhecendo o quão desafiador isso significa, seja porque é uma área rentável e estratégica aos interesses do mercado; seja porque há pessoas que seguem na sala de jantar “[...] ocupadas em nascer e morrer!”.

Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo

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