A chegada de setembro traz consigo o anúncio de uma nova estação. Cuidando do reflorescimento da flora, a primavera cumpre seu ciclo com beleza, delicadeza e muita gentileza, atenta em cada detalhe ao retribuir com flores, colorindo-as formando um mosaico perfeito em seus contornos e aromas.
Estação que inspira poetas, trovadores e compositores na produção de seus versos e rimas tentando traduzir o amor dos que amam ou idealizam amores em sonho; que anunciam ainda uma espécie de nascimento – ou renascimento – algo que ressurge depois de um longo período embernado, como a gélida temporada que a antecede. Algo ainda que parece trazer leveza, alegria, paz, porque o esperançar – do educador Paulo Freire – acende e pode anunciar uma nova era.
Nova era que se deseja após a tormenta passar. E vai passar – ou está passando – ao ver que caminhamos para o fim da pandemia, graças à ciência – que, numa corrida contra o tempo, corria para salvar vidas. Vidas que o Messias podia – mas não quis – salvar!
Tempestade que vai passar ao lembrar-se do pleito que se aproxima, anunciando que podemos construir uma outra realidade. Algo muito longe e distante do que estamos vivenciando!
Realidade em que a fome se faça distante, a dignidade se estenda a todas as pessoas e ninguém conheça o desalento. E isso é possível sim construir: ao confiarmos nossos votos em candidatas e candidatos terrivelmente comprometidos com os direitos sociais e humanos; e não em pessoas embasbacadas com pautas moralistas e de cunho privado.
Realidade em que as cores colorem a vida cinzenta e triste trazida com o temporal – que, por mais doído que seja, devemos relembrar para que jamais se repita. Em que sorrir parece possível porque se consegue viver – e não apenas sobreviver –, porque se é capaz de sentir que há sentido no que se faz; em que não há limites e nem barreiras para voar, sonhar, ir bem longe, ainda que não se saia do lugar!
Um desejo que foram traduzidos pela poetiza Clarice Lispector: “Sejamos como a primavera, que renasce cada dia mais bela... Exatamente porque nunca são as mesmas flores”.
E que bom que é possível renascer; que não são – e nunca serão – as mesmas flores. Que bom que reunimos toda nossa força para expurgar as ervas daninhas, que parecem tomar conta do jardim da vida, impondo um florescer hostil, odioso e avesso à vida.
Ervas daninhas que pregam uma vida armada, venerando uma cultura ainda mais caótica e violenta; criam uma espécie de realidade paralela, irreal e mentirosa, porque se baseiam em fatos distorcidos, infundados e ardilosos; criam um cenário fictício em que a terra é plana, a escola distribui “kit gay” e a universidade propaga ideologias, que desvirtuam seres puritanos a um suposto caminho mal.
Ao menos conseguimos identificá-las para mantê-las com as podas em dia, permitindo que o jardim floresça e não comprometa o colorir da vida. Como diz um ditado popular de autoria desconhecida: “os poderosos podem matar uma, duas ou três rosas, mas jamais conseguirão deter a primavera inteira”.
Ainda que as alterações climáticas imprimam mudanças, a mãe natureza ainda é mais forte, sua força e resistência seguem cumprindo o ciclo da vida, compartilhando conosco tudo o que produz em sua generosidade (quase) infinita, pedindo singelamente que apenas a respeitemos e a deixemos viver.
Por hoje, “trago essa rosa, para lhe dar”, como cantou o magistral Tim Maia, porque sua beleza é capaz de adoçar corações gelados e adormecidos; seu perfume parece preencher nossa alma, com aromas que exalam uma sensação de bem-estar; sua presença nos leva, num piscar de olhos, a imensidão do mundo, torneada em formas tão singelas, únicas e perfeitas.
Abrimos nossos braços para lhe receber, abrimos um sorriso para lhe esperar, porque junto a ti, também renascemos para um “novo tempo” – como cantou Ivan Lins; porque vemos em ti uma força infinita em formato tão frágil e tão belo, capaz de mover montanhas.
“Trago essa rosa, para lhe dar”, porque é primavera!
Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo.
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