Fotos: Arquivo Pessoal
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Educação

Educação como transformação social

O Dia dos Professores traz a reflexão do quanto ainda é necessário valorizar quem dedica a vida a mudar o mundo

No dia 15 de outubro se comemora o Dia dos Professores, data tradicionalmente celebrada mas da qual pouco se fala a origem. A data faz referência a uma lei decretada pelo imperador Dom Pedro I, instituída em 15 de outubro de 1827, a Lei Geral relativa ao Ensino Elementar, primeira a regulamentar questões relacionadas ao sistema educacional no país.

Inovadora para a época, a lei determinava que as questões relativas à educação seriam de responsabilidade das províncias, o que hoje são os estados. Além disso, essa lei também trazia determinações quanto ao currículo, salário e obrigações desses profissionais. Entre os destaques, um dos artigos mencionava o trabalho exercido pelas mulheres e determinava que “as mestras deveriam receber os mesmos ordenados e gratificações concedidas aos mestres’’.

Foi a partir dessa lei que as escolas foram obrigadas a ensinar para meninos e meninas a leitura, a escrita e as quatro operações de cálculo. E foi com esse decreto que as primeiras escolas primárias começaram a chegar a todos os cantos do país e as meninas passaram a também receber aprendizados sobre geometria prática. Antes disso, a elas eram destinadas as aulas de corte e costura, bordado e culinária. 

Hoje, é evidente que a maioria dos profissionais da área são mulheres, em especial nos primeiros anos de ensino. De acordo com os dados do Censo Escolar 2020, realizado pelo Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), 2,2 milhões de pessoas exercem a profissão de professor na Educação Básica do país e as mulheres são maioria em todas as etapas. Elas correspondem a 96,4% da docência na educação infantil, a 88,1% nos anos iniciais e a 66,8% nos anos finais do fundamental, respectivamente. No ensino médio, 57,8% do corpo docente é composto por mulheres.

O Jornal Em Dia conversou com uma dessas inúmeras mulheres, que escolheram como profissão aquela que discretamente, de forma quase imperceptível, molda o futuro do país. Sem os professores e, mais ainda, sem as professoras, como pode se constatar pelos dados do Inep, não há educação básica. E sem educação básica não se formam cidadãos com autonomia. 

TRANSFORMAR VIDAS

Maria Cristina Muñoz Franco é professora, bióloga, especialista em gestão ambiental e mestre em educação. Leciona há 22 anos e, atualmente, trabalha na E.M. Profª Creusa Gomes de Azevedo e na Fesb (Fundação de Ensino Superior de Bragança Paulista), nos cursos de pedagogia e ciências biológicas. No Ensino Fundamental “somos polivalentes, damos aulas de todas as disciplinas”, conta. No Ensino Superior ela leciona disciplinas voltadas para currículo, educação do campo, práticas de ensino, educação e gestão ambiental. 

A escolha pela profissão veio de dentro de casa. “Eu tive uma influência muito grande vinda pela minha irmã, Ana Carla, ao escolher minha carreira. Ela já era professora, me levava em passeios e atividades nas escolas onde trabalhava, eu a via com muita admiração. Na adolescência minha vontade era trabalhar com algo que de alguma forma, eu ajudasse as pessoas, que pudesse transformar vidas – pensei em ser bombeira, fisioterapeuta, mas acabei seguindo a carreira do magistério. Com alguns anos de atividade, percebi que a escolha por essa profissão realmente ajuda pessoas e transforma vidas e essa percepção me deixa muito segura e feliz com minha carreira profissional”, reflete. 

Para ela, o trabalho de uma professora é bem mais amplo do que se percebe. “Vai além do ensinar conceitos, molda as identidades dos estudantes. Por esse motivo, trata-se de um ofício de muita responsabilidade, que envolve o estímulo às curiosidades, ao pensamento crítico, ao respeito à diversidade das formas de ser e pensar no mundo. Nosso trabalho consiste em auxiliar os alunos a construir seus conhecimentos, desenvolver habilidades e procedimentos para a formação de cidadãos do século XXI, assim como valores e atitudesdes necessários para construir uma sociedade justa, sustentável e pacífica”, analisa. 

Escolher a profissão de professor é mais do que optar por um trabalho. Há, sim, muito trabalho, mas há, essencialmente, transformação social. Ser professor é ser um dos principais agentes dessa transformação. É orientar e enxergar potenciais. É, por muitas vezes, ajudar a direcionar futuros, a fazer com que os alunos acreditem que podem, que são capazes. Sem professores não existiriam diversos, senão todos, os demais profissionais. Uma sociedade não evolui sem educação. E não há educação sem professores.

“Ser agente de transformação social é uma identidade da minha profissão, que me orgulho e me identifico muito. Um dos princípios que tenho em minha atuação como professora é o do não determinismo. Nada está dado ou determinado na vida das pessoas, há uma imensidão de possibilidades para a construção dos futuros e eu trabalho para que eles percebam isso. Dessa forma, um trabalho precioso é alimentar os sonhos dos alunos com boas pitadas de olhar crítico para a sociedade, entendendo as barreiras socioculturais como elementos a serem vencidos e vidas sendo transformadas”, diz. 

VALORIZAÇÃO PROFISSIONAL

Mesmo com todo o empenho de professores em oferecer o melhor de si aos alunos, o ofício da educação não se faz apenas dos profissionais. É preciso que haja investimentos na área, que os educadores sejam valorizados de fato, com recursos técnicos e financeiros, não apenas em datas comemorativas, e que a utopia da educação de qualidade para todos não seja um projeto pessoal, mas coletivo.

“Infelizmente a desvalorização dos profissionais da educação, e consequentemente do processo educativo, não é resultado do acaso, mas sim um projeto de país que não começou agora, mas que nosso governo atual se empenha fortemente em realizar. Durante muito tempo a figura do professor, principalmente da educação infantil e séries iniciais, se confundiu com o ‘cuidador’ de crianças – vista como uma profissão fácil, simples e que não requer habilidades muito complexas. Essa visão faz parte do senso comum de muitas pessoas, valoriza-se muitas vezes a ‘paciência’ que temos que ter para lidar com alunos, mas pouco o desempenho intelectual e capacitação técnica para fazê-lo. Frases que são muito ditas e que, na minha opinião, conferem um atributo negativo a nossa profissão é ‘ser professor é um dom’ ou ‘pedagogia por amor’.

Por mais que pareçam elogios inocentes, eles favorecem para que não sejamos valorizados como profissionais que se qualificam tecnicamente, apagam toda a contribuição científica para compreensão das formas de ensinar e aprender, todo o esforço intelectual e científico na formação e na qualificação dos professores. Claro que há habilidade e muito amor envolvido no fazer educativo, mas como qualquer outra profissão há muito estudo e esforço na preparação técnica e intelectual dos professores para serem bons profissionais e esse reconhecimento, muitas vezes, é deixado de lado”, analisa. 

Um exemplo de quanto o esforço de professores é pouco reconhecido, pode ser notado durante o processo de adaptação em virtude da pandemia. As aulas presenciais passaram a ser on-line. E os profissionais precisaram descobrir, por conta prórpia, habilidades, em especial tecnológicas, para conseguirem seguir cumprindo suas funções. “Foi um grande desafio, tanto para os profissionais da educação quanto para as famílias.

Foi necessário ter paciência de ambas as partes, pois estávamos aprendendo juntos com essa nova realidade. Eu já utilizava alguns recursos digitais em minhas aulas, precisei pesquisar um pouco mais e pensar nas possibilidades de adaptação. Trabalhamos muito, desenvolvemos habilidades tecnológicas que serão agregadas ao nosso fazer educativo mesmo após a pandemia”, conta. 

BAQUARA EDUCATIVA

Em meio ao processo de adaptação, Maria Cristina percebeu que suas experiências profissionais poderiam auxiliar colegas. “Eu sempre gostei de compartilhar meus saberes e descobertas com outras pessoas e, durante a pandemia, vi isso como uma necessidade. As ferramentas digitais e recursos tecnológicos que eu estava descobrindo, utilizando e vendo que estavam dando certo, eu ia passando a dica.

Como eu trabalhei por mais de dez anos com a formação continuada de profesores pela Secretaria Municipal de Educação enquanto estive à frente da Sala Verde Pindorama, essa era uma prática familiar para mim e dessa forma, em parceria com minha irmã e inspiração como professora, Ana Carla, nasceu a proposta da Baquara Educativa, um espaço colaborativo de formação e transformação continuada de professores, que promove cursos e oficinas para o aprimoramento técnico e reflexivo daqueles que buscam qualificação profissional.

Ali oferecemos atividades formativas gratuitas e pagas, produzimos materiais didáticos e realizamos eventos educativos. A escolha do nome mostra muito sobre nossa intenção, Baquara é um termo indígena que significa sabido, esperto. O que nós desejamos é formar uma grande comunidade de professores baquaras, aqueles que otimizam seu tempo e conseguem realizar um excelente trabalho com resultados de qualidade”. Para conhecer o projeto, é só acessar o site www.baquaraeducativa.com

EDUCAÇÃO NÃO É NEUTRA

Recentemente se comemrou o centenário de Paulo Freire, patrono da educação no Brasil. E não há como se falar em Dia dos Professores sem refletir sobre seu legado. “Que sorte a nossa termos tido um educador como Paulo Freire que via a educação como uma ferramenta de transformação social e que pôde levar para todo o mundo esse olhar. Suas ideias foram base para pensar a potência do processo educativo na vida das pessoas a partir da realidade da maioria dos brasileiros.

A educação não é e nunca foi neutra, como professora há 22 anos, vejo que muito se fala sobre Paulo Freire, mas pouco se pratica. Quem o culpabiliza pelos resultados ainda muito ruins da educação brasileira, mal sabe que quase nada de seus ideais refletem ali, no chão das escolas. Ainda temos muito viva a prática das escolas bancárias, tradicionais, conteudistas e que não consideram o contexto dos alunos – isso tanto criticada por Freire. Me refiro, aqui, tanto a escolas públicas como privadas. Os resultados ruins não são fruto de um método ou proposta pedagógica, mas sim de um projeto de país que não valoriza a educação e os educadores”, reflete.

Como Maria Cristina diz, não há, e não é de hoje, a valorização do ofício da educação no país. Mas, se há um sonho de futuro, isso se deve ao empenho de quem está dia a dia, em sala de aula. Seja ela física, seja ela virtual, como é na nova realidade. “Como uma otimista convicta, mesmo abalada por um descrédito em boa parte da humanidade, acredito que há um futuro para a educação no país, desde que olhada com a devida seriedade, com a valorização dos profissionais da educação, com condições de trabalho e de formação equivalentes às necessidades que cada local apresenta. A educação e a ciências precisam andar de mãos dadas e essa deve ser nossa luta diária”, conclui.

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