Simone de Beauvoir – filósofa, professora e escritora francesa – já defendia em sua passagem por esse mundo (1908-1986) a igualdade de direitos entre homens e mulheres. Precursora do feminismo, entoava pensamentos empoderados sobre o papel da mulher na sociedade, numa época de larga prevalência do gênero masculino.
Legado que permanece vivo nas lutas ainda necessárias nos dias de hoje, numa sociedade – como a brasileira – que segue reproduzindo diferenças e desigualdades entre os gêneros; com definições de espaços e papéis atribuídos a homens e mulheres, onde em coro – ora conservador, ora fundamentalista – se diz que “menino vez azul e menina veste rosa”, como mencionou certa vez a atual senadora Damares Alves.
Ora, dizia Simone: “que nada nos defina, que nada nos sujeite; que a liberdade seja a nossa própria substância, já que viver é ser livre”.
Ser livre para – além de vestir o que quiser – ser quem se deseja ser: sem pré-julgamentos, estereótipos, papéis definidos e suposta consciência pesada... Caminho que ainda galgamos conquistar!
Assim como alcançar direitos iguais numa sociedade que ainda é muito desigual, onde mulheres acumulam dupla ou tripla jornada de trabalho; dedicam o dobro de tempo, em relação a homens, aos cuidados de pessoas ou afazeres domésticos; recebem salários inferiores – tomando como base o mesmo cargo, função e jornada de trabalho – realidade que se agrava ainda mais ao agregar o componente racial, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Em dados concretos, vale lembrar que o salário da mulher é cerca de 78% dos rendimentos de um homem; e no caso de mulheres pretas ou pardas, esse percentual cai para 46%, ou seja, isso é menos da metade dos salários de homens brancos, segundo o IBGE.
Parte dessas diferenças tenta ser reparada pelo Projeto de Lei nº 1.085/2023, que dispõe sobre a igualdade salarial entre mulheres e homens para o exercício de mesma função, o qual embora aprovado pela Câmara Federal, em maio deste ano – devendo agora ser apreciado pelo Senado – teve resistência e foi rejeitado por alguns parlamentares – inclusive mulheres – de partidos conservadores, de direita, que seguem mantendo seus privilégios e reproduzindo desigualdades.
Erasmo Carlos – cantor e compositor brasileiro (1941-2022) – tinha razão ao cantar “dizem que a mulher é o sexo frágil; mas que mentira absurda! Eu, que faço parte da rotina de uma delas, sei que a força está com elas”.
Elas são fortes, mas estão exaustas!
Cansadas do acúmulo de tarefas; sobrecarregadas pelos papéis socialmente atribuídos; exauridas por não serem reconhecidas; exploradas pela sobrecarga de trabalho!
Paremos de romantizar essa força excessiva, que é necessária para sobreviver numa sociedade machista, patriarcal, que segue reproduzindo diferenças e desigualdades...
Na melodia poética ao reconhecer a força desta mulher, Erasmo segue cantando: “na escola em que você foi ensinada, jamais tirei um dez; sou forte, mas não chego aos seus pés”.
Para além de rimas perfeitas e dedicatórias merecidas, nossa luta pela igualdade de direitos segue...
Segue identificando os parlamentares contrários a igualdade salarial, posto pelo Projeto de Lei nº 1.085/2023. Você sabe como votou a/o parlamentar que lhe representa? Afinal, algumas deputadas mulheres – que ganham os mesmos proventos que homens na Câmara – votaram contra, sabia?
Segue ampliando os espaços onde estamos inseridas, abrindo alas para que outras mulheres se somem a nós: em força e coro...
Segue em busca da liberdade proferida por Simone: uma liberdade que não limite nenhuma mulher em seu existir, e que, para tanto, conte com as condições para que isso de fato aconteça!
Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo
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