news-details
Painel

Entre a pandemia, a economia e a hipocrisia

Muitas pessoas estão deixando de lado o pouco bom senso que tanto se esforçam para demonstrar nos primeiros dias de quarentena.

Recapitulando, a OMS decretou a pandemia em março, antes disso não havia, ao menos na América Latina, casos confirmados da doença Covid-19, causada pelo novo coronavírus.

Muito tem se debatido acerca dos enfrentamentos entre o presidente da República, Jair Messias Bolsonaro, e os governadores dos estados, em especial, o governador do estado de São Paulo, João Doria.

Nos parece certo o fato de que o presidente Bolsonaro tem perfeito conhecimento de que os planos do Ministro Paulo Guedes para recuperar a economia falharam, ou, ao menos, não obtiveram os resultados esperados.

Diante disso, e com a pandemia instalada, temos visto os discursos do presidente, a última em cadeia nacional, no sentido de minimizar a doença. Chegou a dizer que o vírus é fantasia, depois que é uma gripezinha e agora tudo não passa de uma histeria disseminada pela mídia.

A conclusão do presidente é de que a economia não pode parar, e assim faz sua politicagem, atribuindo a culpa de qualquer problema econômico futuro aos governadores que estão tentando controlar a disseminação do vírus conforme a orientação da OMS e do Ministério da Saúde, ouvindo técnicos e especialistas.

Ao mesmo tempo que inicia os discursos irresponsáveis, ao que parece, escala seu filho para afirmar que a China, que até então era “uma grande aliada” comercial, é a responsável por uma disseminação culposa do vírus, motivada economicamente.

O Ministro das Relações Exteriores, para a surpresa de todos, endossa o pronunciamento, criando, assim, uma crise diplomática que inflama os desavisados contra a República Popular da China.

Por que Bolsonaro age assim? Bom, a resposta das ruas após seu pronunciamento foi imediata. A maioria esmagadora condenou o discurso infeliz. Contudo, os fiéis apoiadores, arrebanhados pelo discurso avesso à ciência, mas que legitima os mais desavisados, estão utilizando das redes sociais para contribuir com a desinformação acerca da periculosidade da Covid-19, incentivando as pessoas a abandonarem o isolamento.

Vale salientar que nem mesmo os especialistas têm absoluta convicção acerca do tema envolvendo a doença, de tal infortúnio que sequer há consenso quanto à letalidade nos grupos não considerados de risco. 

Agora, temos um cenário no qual os apoiadores do governo e os mais alheios às questões políticas, estão acreditando que o presidente está tentando salvar a economia do país, não de uma pandemia, mas de um conchavo, uma união de governadores e da mídia que estão a fazer oposição estritamente política ao presidente, seus discursos e às medidas por ele tomadas, utilizando-se do medo e do terror de uma doença supervalorizada, mas que na verdade é só uma gripezinha.

Pois bem. Estamos em meio a pandemia e os despautérios continuam. Muitos estão fazendo o jogo de Jair Bolsonaro, cumprindo a “agenda” política do Palácio do Planalto.

O que nos entristece, é que o presidente tem plena consciência de que o vírus pode ser letal, não só aos idosos, mas para muitas outras pessoas, como por exemplo aquelas que estão enfrentando uma dura batalha contra o câncer, AIDS, tuberculose, cardiopatias diversas, entre outras doenças. E como dito antes, não há consenso sobre os grupos de risco, pois tem sido noticiada a morte de jovens saudáveis.

Assim, os fatos nos levam a crer que, para o presidente, tanto faz se vão morrer duas ou dois milhões de pessoas. O que importa a ele é criar uma sustentação para seu discurso, ao arrepio das orientações da OMS, contrariando os governadores que as seguem, com o intuito de ludibriar a opinião pública, incutindo a ideia de que o líder do Executivo está a lutar pelo povo. Mas na verdade, está a defender os interesses econômicos de poucos que detém a maior parte da renda e resguardar ao máximo sua imagem para 2022. 

Jair Bolsonaro, o homem que está presidente, chama a quarentena de histeria, incentivando os brasileiros a saírem de suas casas, expondo-os ao contágio e arriscando a vida dos idosos que vivem no mesmo lar. O faz sabendo que poderá custar inúmeras vidas. Mas o foco do presidente é a economia, não a vida dos brasileiros. Somos apenas números em uma planilha do ministro. Para que a economia não pare, você, eu, e muitas pessoas teremos que nos expor ao contágio, correndo o risco de contaminar nossos entes queridos.

O fato é que Bolsonaro não conseguiria sair ileso da crise econômica atual para disputar as eleições de 2022. Assim, tudo indica que o presidente encontrou na "terceirização da culpa" aos governadores dos estados uma saída para este lamentável episódio de pandemia que jogará uma "pá de cal" nos planos de Paulo Guedes.

 

Régis Fernandes é advogado e professor, pós-graduado em filosofia e em direito imobiliário, membro das comissões de Direitos Humanos e Assistência Judiciária da 16ª  Subseção da Ordem dos Advogados do Brasil.

Você pode compartilhar essa notícia!

0 Comentários

Deixe um comentário


CAPTCHA Image
Reload Image