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Olhar Social

Envelhecer não é romântico!

Envelhecer é parte da vida de todos os seres vivos. Uma bela flor nasce de um pequeno botão, passam-se os dias para o seu florescer, quando desponta uma linda flor, capaz de encher os olhos de quem lhe aprecia, colorir o ambiente onde se encontra e agraciar seus amantes e corações apaixonados. Sua presença é um presente para os dias, até que as pétalas começam a cair, uma a uma, seu corpo vai se curvando, murchando, perdendo sua cor e beleza, dando fim ao seu ciclo de vida.

No caso dos seres humanos, envelhecer também faz parte da vida vivida. Um processo natural, inevitável e irreversível. Eventualmente, procedimentos estéticos camuflam as marcas do tempo, enfeitam e embelezam a aparência física, mas o ciclo segue seu percurso gradativamente dia a dia...

Aos poucos, os fios brancos começam a aflorar, linhas de expressão se tornam mais expressivas, dores inexistentes ou localizadas expandem seu raio de ação, limitações ou necessidades específicas se fazem presente, seguindo o curso do passar dos dias. A vida vivida também permite acumular, é verdade, muita sabedoria, experiência, conhecimento...

Mas não romantizemos esse processo. Envelhecer não é romântico!

É um fato concreto e real de quem segue a vida.

É um processo que pode ser muito cruel a depender das condições que cada pessoa dispõe. Seja da vida dura e pesada, vivida ao longo dos anos; seja por não ter condições – físicas, materiais, estruturais – ou com quem contar nessa etapa da vida. Ou seja, o envelhecimento não é igual, belo, lindo e prazeroso para todas as pessoas!

A realidade desigual – seja no campo étnico-racial, de gênero, renda, entre outras – mantida e reproduzida em nosso país, produz vivências muito distintas desse processo. Uns vão curtir a tal terceira idade, vão passear, usufruir dias alegres e festivos, o que deveria se estender a todos; mas outros, sobrevivem com o pouco que a aposentadoria (quando existente) lhes garante. O salário-mínimo, fonte de renda de muitos idosos, não supre o que a idade demanda. E nem estamos falando em regalias, mas acesso às condições básicas de subsistência.

Nesse sentido, assumir o envelhecimento como campo das políticas de políticas públicas é primordial em um país, como o Brasil, que possui velhices muitos distintas e um gradativo processo de envelhecimento.

É bem verdade que a população do planeta está vivendo mais. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), o número de pessoas com mais de 60 anos chegará a 2 bilhões até 2050. Essa tendência de envelhecimento da população também é uma realidade em nosso país. A expectativa aqui, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é que o número de pessoas acima de 65 anos vá triplicar, chegando a 58,2 milhões em 2060, o equivalente a 25,5% da população. Antes, porém, já em 2030 a estimativa é de que o país tenha mais idosos do que crianças!

Viver mais e poder seguir a jornada da vida é, sem dúvida, uma grande conquista da ciência e das lutas políticas e sociais ao longo do tempo. No início dos anos de 1900, por exemplo, a expectativa de vida no Brasil era de 33,7 anos. Hoje, passados mais de um século, o salto foi para 76,8 anos, segundo projeções do IBGE.

Mas não se espera apenas que se viva mais. Deseja-se viver bem!     

E viver bem implica reconhecer o envelhecimento populacional no campo das políticas públicas. Assegurar uma rede de serviços – permanentes ou temporários – capaz de auxiliar os idosos, e suas famílias, nas mais diversas necessidades oriundas dessa etapa da vida. Requer contar com profissionais qualificados; rede de mobilidade urbana adequada; espaços públicos adaptados; atividades de cultura, lazer e bem-estar...

Requer garantir uma aposentadoria digna ou uma renda básica de cidadania para todos e capaz de suprir as necessidades básicas de subsistência, especialmente face aos agravos de doenças, acidentes e tantas formas de perda e sofrimento vividas ao longo do tempo...

Do contrário, seguimos romantizando um processo real e inevitável do ciclo da vida: o envelhecimento humano!

Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo.

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