Eu não sabia dos ataques em Paris. Não sabia. Estava desconectada, aproveitando a noite, enquanto meus irmãos eram mortos. Não, eu não sabia. E confesso que fui tomada por dois sentimentos, o primeiro, vergonha, por não saber o que todos sabiam, e é isso o que acontece no mundo globalizado: Culpamo-nos por aquilo que devíamos saber. O segundo, tristeza. Tristeza, sobretudo, por aquilo que nos tornamos.
Algum tempo atrás, quando dos ataques à sede do Jornal Charlie Hebdo, manifestei-me de forma clara, dizendo que não compactuava com a forma desrespeitosa com que o referido periódico tratava a crença alheia, e não mudei minha opinião. Aliás, mais esse episódio lamentável de agora, só vem ratificar aquilo que afirmei no outro artigo. O que nos falta é respeito. Respeito pelo outro, pelo fato de o outro constituir um universo completa e absolutamente distinto do nosso. Respeito pela história individual de cada um, respeito pela cultura do outro, que, tal como a nossa, se formou há milhares de anos.
E, pasmem, o fanatismo dos grupos islâmicos não se difere em nada daquele a que temos assistido dentro de nosso próprio país. Guardadas as devidas proporções, também temos lidado com seitas e religiões que pregam abertamente o ódio e a extorsão material de seus membros. E assim como a religião islâmica, arrastam milhões de seguidores, prometendo-lhes o céu, enquanto os impedem de pensar a fim de que não questionem quando roubados.
Não, o Reino de Deus não é isso. O Altíssimo, ou dê-lhe o nome que preferir, não propôs nada disso. Aliás, foi Ele mesmo quem dotou a todos nós de intelecto. O Reino de Deus passa sim pelo jugo da razão. O Reino de Deus se conquista com amor e poesia, e não com doações daquilo que nos falta.
Eu me pergunto: o que anda acontecendo com o mundo? Matamos nossos irmãos em nome da defesa de uma fé. Mas a fé não serviria exatamente para o contrário?
Nossa fé, seja ela qual for, deveria ser tão mansa e sutil e agradável, que convidasse o outro, sem a necessidade de palavras, muito menos de ordem, ou gritos cheios de histeria, a viver uma vida abundante, plena de amor, compreensão e cuidado com o outro.
Eu não me encontro em qualquer tipo de fé que desrespeite o outro, porque, antes de qualquer doutrinação, o vejo como meu semelhante. Eu não me encontro numa fé que, se não assassina como os islâmicos, fere e mata o intelecto de seus seguidores, com verdadeiras lavagens cerebrais, das quais, estou certa, Cristo sentiria nojo.
O que nos difere então, daqueles a quem, com o dedo em riste, ousamos chamar de assassinos sanguinários?
Nosso povo já carrega consigo uma herança tão vexatória de exploração e desrespeito, que acredito que não seja papel da igreja (seja ela qual for) dar continuidade a esse legado horroroso.
E quando a Paris enlutada apagou as luzes de seu símbolo maior, eu também me senti no escuro, no escuro imenso e vazio que se tornou nossa humanidade. E pensei: Era para sermos luz... Luz uns para os outros. De nossos olhos deviam brotar fagulhas de luz, que conduzissem ao outro e a nós mesmos em caminhos seguros, alicerçados pelo amor fraterno que Ele propôs.
Tudo o que vejo é escuridão. E mais uma vez sou tomada pela vergonha. Agora, pela vergonha de ainda escrever, ainda sentir e querer transformar aquilo que sinto em palavras inteligíveis.
As palavras, essas minhas amantes tão queridas, parecem já não fazer mais muito sentido num mundo movido pelo ódio. É uma pena...
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