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Olhar Social

“Estamos prontos pra lutar”

Decorrido o mês em que rememoramos a “consciência negra” – em 20 de novembro, data que marca o assassinato de Zumbi dos Palmares, importante liderança de resistência contra a escravização do povo negro – nos inspiramos em Nelson Mandela (1918-2013) – presidente da África do Sul, prêmio Nobel da Paz em 1993 e uma das vozes contemporâneas mais ecoantes no enfrentamento ao racismo para entoar: “Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar”.

Por essas terras, o fomento ao ódio parece estar em ascensão, como se estivesse na moda, tanto enquanto produto de processos históricos mal resolvidos – como face a violação dos direitos humanos e princípios democráticos impostos durante o Regime Militar, o que produz uma massa ainda maior de simpatizantes ao sistema, ou ainda grande letargia na reparação efetiva do período da escravização do povo negro em nosso país; quanto algo que foi muito estimulado pelo próprio futuro ex-presidente da República, a partir de suas falas e comportamentos explícitos e criminosos, que entoam o preconceito, a violência e a indiferença, algo que não poderia jamais ser ignorado.

Ao flertar com os anos de chumbo; ofender quase cotidianamente mulheres, a população negra, indígena, LGBTQIAP+, nordestinos ou qualquer outro grupo desprezível aos seus olhos; ignorar e desprezar as instâncias que regem o Estado Democrático de Direito, o mandatário do país reproduzia uma espécie de protótipo do fascismo, o que não tem nada de engraçado e já ultrapassou todas as barreiras de ser ou virar “memes” – como querem justificar alguns que dizem ser o “jeitão” dele ou que ele parece aquele “tiozão” inconveniente do churrasco, mas que é boa pessoa.

Assim começam os regimes totalitários que dizimam povos, justamente por não aceitarem o contraditório, as diferenças, cultuarem figuras míticas, desprezarem valores democráticos e coletivos, propagarem uma narrativa de vitimização de determinados grupos – em especial, coletivos que reivindicam espaços e direitos – e exaltar os valores tradicionais e conservadores de uma sociedade, pautados em pilares que invocam a família e a religião.                

Ideologia política que se apropria de uma retórica ultranacionalista – e até de símbolos nacionais; de práticas autoritárias e violentas – que fomentam o armamentismo; que infla a massa com discursos populares – como o combate a corrupção ou falas que intimidam e geram medo, como o enfrentamento ao comunismo, ainda que não se saiba o que de fato seja “comunismo”!

Será que essas semelhanças são meras coincidências com nossa realidade atual?

Cenas recentemente veiculadas de pessoas impedidas de circular em razão dos atos antidemocráticos são criminosas – como do pai que tentava levar o filho a emergência médica ou ainda da mulher que pretendia chegar ao velório da própria mãe; assim como foi criminosa a ação da polícia rodoviária federal exatamente no dia do segundo turno do pleito na região nordeste do país, impedindo que pessoas – não são quaisquer pessoas – chegassem ao local de votação. Atentar contra a democracia não é liberdade de expressão, assim como dizer ou fazer qualquer coisa ao seu bel prazer. Ao contrário, essas pessoas precisam ser identificadas e punidas com o rigor da lei.

A tempestade vivenciada nos últimos anos, em especial sob a égide do atual governo – e toda destruição que ela deixou – não pode ser esquecida, ignorada ou anistiada.

Em outro ponto, a mudança dos ventos não é sinal de chegada ao paraíso, sobretudo reconhecendo as mãos que foram apertadas, que culminaram num amplo arco de alianças, tudo isso para que pudéssemos voltar ao escopo democrático.

Mas “estamos prontos pra lutar” – como canta o hardcore melódico da banda capixaba “Dead Fish”. E iremos lutar...

Lutar para que tudo que atente contra o Estado Democrático de direito seja abolido e punido; para que as instâncias democráticas e coletivas sejam reconhecidas e respeitadas; onde ao contrário do fomento ao ódio, impere o respeito, empatia, tolerância com os diferentes de si e todas as formas de diferença; e onde os mitos estejam presentes apenas no mundo da fantasia.

Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo.

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