Fotos: Roberto Del Corvo
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Falar sem voz: muito além do som

Quem tem acompanhado a versão virtual do Festival de Inverno já percebeu que há uma pessoa ali que é quase onipresente. Na maior parte das apresentações ao vivo, com exceção das de música instrumental, ela está lá, no cantinho da tela. O nome dela é Malu Silva, tradutora-intérprete de Libras (Língua Brasileira de Sinais) que, entre estudo, pesquisa, formação e atuação, completa 17 anos na área, em agosto. Mesmo que seu maior reconhecimento profissional venha, realmente, a partir das traduções e interpretações em Libras que realiza para eventos públicos, Malu tem um currículo extenso na área de Educação.

É graduada em Educação Artística e Pedagogia, tem diversas pós-graduações e, no momento, está cursando um mestrado. É professora de Educação Básica, Educação Especial e Educação de Surdos. Atua como docente em cursos de graduação na Fesb e de pós-graduação em outras instituições. É coordenadora pedagógica e criadora de materiais bilíngues (Língua Portuguesa/Libras) do ceiLibras (Centro Educacional de Idiomas Libras), professora bilíngue Libras/Língua Portuguesa Prolibras - MEC, tradutora-intérprete de Libras/LP, guia-intérprete, pesquisadora da área de Educação de Surdos e de formação de professores que atuam nessa área. 

“O interesse em especializar-me em Libras surgiu pelo incentivo de duas professoras surdas. Atuei, durante alguns anos, em uma escola da rede municipal de Bragança Paulista, onde havia alunos surdos, e, por não saber Libras, me incomodava não conseguir me comunicar com eles. Diante desta situação, procurei formação na área, na qual me especializo até hoje”, conta. 

O Jornal Em Dia conversou com Malu Silva, que falou mais sobre seu trabalho e também sobre a inclusão de pessoas surdas. 

MAIS TRABALHOSO DO QUE PARECE 

Malu está ficando mais conhecida agora, por conta do Festival de Inverno, mas ela já havia realizado trabalho semelhante no Maio Cultural. A diferença é que lá, as apresentações eram gravadas anteriormente à exibição. Mesmo com essa diferença, toda a pré-produção até chegar ao produto final requer preparação e atenção aos detalhes. Os espectadores que acompanham de casa não imaginam o quão trabalhoso é para ela e para a equipe de audiovisual do festival fazer com que tudo saia com a maior precisão possível e que a presença dela ali se torne tão natural que fique quase imperceptível para as pessoas não-surdas que acompanham as apresentações. 

Malu trabalha na companhia do marido e parceiro, também tradutor e intérprete de Libras, Roberto Del Corvo. É com ele que divide toda a parte técnica que antecede as atividades das quais participa. “No Maio Cultural, com os vídeos gravados, improvisamos um mini estúdio, com chroma key (o fundo verde). Primeiro assistíamos os vídeos, depois eu fazia a tradução-interpretação e depois fazíamos a edição, me inserindo nas gravações enviadas pelos artistas”.

Para as apresentações musicais que participa ao vivo, ela recebe o set list anteriormente. Se as músicas são em outro idioma que não o português, o trabalho é redobrado. “Eu ouço a música na língua original, aí faço a tradução para o português. Na apresentação, conforme a música é cantada, eu vou acompanhando a legenda e fazendo a língua de sinais. É esse o trabalho de tradutor-intérprete. Você tem que buscar o tempo todo o que se encaixa melhor no contexto, para poder passar toda emoção que a música traz, com ritmo, expressão corporal e facial. Quando a gente fala que a língua de sinais não é universal, são esses entraves que encontramos enquanto profissionais da área”.

Além disso, saber a Libras não significa ser poliglota em idioma de sinais. “Para ter uma ideia, existem entre 138 e 300 tipos de língua de sinais utilizadas ao redor do planeta, o que comprova que cada país possui sua própria língua de sinais, sua cultura e identidade, assim como ocorre com as línguas orais”, fala. 

Como Malu explica, interpretar Libras requer mais do que ter conhecimento a respeito da língua, isso se refere à tradução. A interpretação é baseada na expressão e emoção. “Acredito que, os 14 anos que atuei como atriz amadora na área teatral e os trabalhos que fiz como professora na parte lúdica, usando a contação de história como recurso e trazendo personagens para a sala de aula foram experiências que fizeram toda a diferença na performance das interpretações culturais. É uma área que me encanta e me entrego de corpo e alma. Iniciei em eventos culturais em 2009, de um jeito mais tímido e, ao longo dos anos, ampliou-se para eventos com um público maior”, conta. 

Há todo um processo para que o trabalho de Malu chegue ao melhor resultado possível. O esforço é grande e também compensador. “Está sendo muito gratificante. O público que assiste o festival de forma presencial quando se depara comigo depois do evento comenta e elogia o que viu. Os que acompanham pelo Facebook também fazem comentários. Há surdos que acompanham pelo Facebook e outros de maneira presencial. É importante a presença deles, isso mostra que a interpretação em Libras garante a acessibilidade”, enfatiza.

INCLUIR E DAR ACESSO

A inclusão, mesmo que ainda modesta, da Libras nas atividades culturais demonstra que produtores e artistas estão tomando consciência de que as pessoas surdas também são público. Malu conta que, com a pandemia e, consequentemente, o aumento das lives, seu trabalho tem sido cada vez mais requisitado, inclusive fora de Bragança. No entanto, não é apenas para esse tipo de atividade que sua presença é solicitada.

“Já fiz trabalhos em diferentes repartições e lugares inusitados: fórum, delegacia, casamento, velório, igreja, hospital, escolas, faculdade, concursos públicos. Já fui avaliadora de banca para contratação de tradutores-intérpretes e acompanhei os surdos em curso teórico de formação de condutores e em avaliações práticas de carro e moto, junto aos avaliadores. Fiz mediação de diálogo entre pais ouvintes e filhos surdos, aconselha-mento aos surdos e familiares, treinamento e palestras em empresas, acompanhamento de surdos em entrevistas de trabalho. Sou contratada por produtoras de vídeo para realizar o trabalho de tradução-interpretação em vídeos institucionais de empresas, campanha eleitoral, treinamentos e palestras”, diz. 

No entanto, ter uma tradutora-intérprete de Libras esporadicamente, em eventos com público ou situações do dia a dia, não é o que vai resolver a questão da inclusão. É preciso muito mais do que isso para, de fato, incluir a comunidade surda. Se a Libras fosse ensinada nas escolas, como são as línguas estrangeiras, por exemplo, haveria maior acesso para os alunos com deficiência auditiva. “A interação entre surdos e ouvintes aconteceria de forma natural e eficaz. Porém, ao falarmos de inclusão dos alunos surdos, necessitamos de outras estratégias pedagógicas, que vão além da comunicação entre ambas as comunidades”, avalia Malu. 

Outro ponto importante sobre a Libras é que ela também foi reconhecida como a segunda língua oficial do Brasil, depois do português. Porém, isso também é insuficiente. “Essa questão traz algumas controvérsias entre os estudiosos e pesquisadores da área. Ela é considerada a segunda língua oficial do país uma vez que o governo a reconheceu como meio de expressão dos surdos. Mesmo isso explicitado nos documentos legais, acredito que falta um maior aprofundamento em relação aos conceitos básicos sobre línguas em geral, língua franca e línguas oficiais.

O fato da Libras receber o ‘reconhecimento oficial’, significa que ela pode ser usada em diferentes situações oficiais, como por exemplo, o surdo que só se comunica em Libras pode solicitar a presença de um intérprete para fazer uma prova do vestibular, concurso público, bem como ter um tempo maior para a realização da mesma. Outro ponto importante é que a Libras não substitui a modalidade escrita da Língua Portuguesa. A comunidade surda continua a buscar seus direitos, principalmente em relação à acessibilidade nas repartições públicas, formação e atuação dos profissionais”, explica. 

COMO APRENDER LIBRAS 

É mais comum que familiares de pessoas surdas procurem pelo aprendizado da língua. Mas, como foi o caso de Malu, o interesse não precisa ser apenas por esse motivo. “Qualquer pessoa que queira aprender, pode procurar o ceiLibras. O Centro Educacional completou dez anos de trabalho em abril e oferece cursos de Libras do básico ao avançado, técnicas de tradução e interpretação, aulas de Língua Portuguesa para Surdos, curso de alfabetização e letramento voltado aos alunos surdos, cursos de Libras personalizados nas diversas áreas para empresas e prefeituras, oferta de serviço de tradução-interpretação, etc. Além disso, durante estes anos, o ceiLibras possibilitou que profissionais que atuam na rede municipal e estadual estejam atuando nas escolas, por meio dos cursos livres. Em 2018, fomos agraciados com a certificação de qualidade pelo trabalho que executamos na área. Temos publicações de artigos em congresso, revista e capítulo de livros sobre as práticas do nosso espaço e das pesquisas que realizamos”, conta. 

Mesmo aprendendo a Língua Brasileira de Sinais, para ser profissional da área, assim como de qualquer idioma, é preciso aperfeiçoamento e atualização. “O primeiro passo é buscar cursos de formação inicial e continuada, ler, estudar, pesquisar, praticar e, acima de tudo, respeitar a língua, cultura e identidade surda. É uma formação para a vida toda, é preciso acompanhar as mudanças que ocorrem tanto na língua quanto na legislação e dedicar-se em todos os sentidos. E, mesmo concluir um curso e receber o diploma não forma um tradutor-intérprete. A formação faz parte do processo de aprendizagem que deve ser aliado à prática, vivência e, acima de tudo, ao reconhecimento dado pela comunidade surda. Muitas pessoas têm a certificação necessária, porém, não são fluentes na língua e isso dificulta muito a qualidade do trabalho ofertada aos surdos”, explica. 

Para saber mais e se informar sobre os cursos e serviços oferecidos pelo  ceiLibras, entre em contato com Malu ou Roberto pelos respectivos telefones: (11) 9 9739 2273 e  (11) 9 4982 8222 ou pelo e-mail: ceilibras2011@gmail.com.

 

 

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