“Nuvem de lágrimas” é até hoje um dos maiores hits cantado por Fafá de Belém. Letra que faz um convite ao coro que canta o sofrimento de um coração partido. Pranto que rola manifestando os sentimentos vividos na intensidade da vida humana.
Lágrimas que seriam capazes de encher um oceano, quando o sofrimento parece infinito. Lamentos que expressam as dores vividas, num mundo com tantas diferenças, desigualdades e injustiças; que lavam a alma, quando se deixa expressar e escorrer as emoções cotidianas; e que poderiam sim ser capazes de sensibilizar o mais duro dos corações, ao enxugar-se o pranto num gesto de empatia as emoções alheias.
Lágrimas ou sequer alguma forma de manifestação de apoio, compaixão ou empatia que não vimos por parte do futuro ex-presidente da República aos, dentre outros, vitimados pela maior crise sanitária da história recente; ou ainda face aos inúmeros sofrimentos vividos por milhares de pessoas esfaceladas por um sistema que concentra renda em poucas mãos e impõe uma condição indigna a uma imensidão de pessoas. Nem a fome, o desemprego ou subemprego, e mesmo as condições precárias de vida e sobrevivência parecem ter sido suficientes para sensibilizá-lo. Seu deboche, descaso e desrespeito – ao contrário – pareciam colocar em xeque reconhecê-lo como humano.
No entanto, em recente aparição pública durante a cerimônia das Forças Armadas, ocorrida no início de dezembro – após sua hibernação depois da derrota do último pleito, o que em si é extremamente grave, parecendo uma espécie de abandono do cargo – o vimos chorar. Olhos lacrimejados de uma face abatida, mas incapaz de nos abalar. Afinal, “vai ficar chorando até quando?”; “chega de mimimi”!
Forçadas ou espontâneas, são lágrimas de quem sabe que a “mamata” acabou; que reconhece ser possível sim – se a justiça se fizer presente – que ele responda pelos crimes que cometeu; que sabe e que é real que a democracia venceu, contra todas as suas canetadas e devaneios.
Nossas lágrimas ainda escorrem, não mais por toda angústia intensificada pelo atual mandatário da República indiferente ao sofrimento alheio, cuja gestão está muito prestes de acabar; mas pela alegria no reconhecimento que a democracia venceu e paralisou a ascensão de um projeto de país que flerta com o fascismo. Por identificar que o trato da máquina pública estará ancorada em princípios que – necessariamente – regem uma sociedade democrática, o que passa por contar com a presença da oposição e de coletivos organizados; por vislumbrar que as políticas sociais podem ter outro destino, para além de todo esvaziamento que vivenciam, mesmo reconhecendo que muitos enfrentamentos serão necessários, em especial porque elas são – e sempre foram – objeto em disputa.
Alegria que nos devolve o direito de sonhar, porque os sonhos podem se tornar realidade; que permite que se volte a plantar desejos no fundo do coração e esperançar por dias melhores, porque sabemos que eles podem se realizar; e por reconhecer que o futuro presidente da República é sensível ao sofrimento alheio e que suas lágrimas não são de crocodilo.
Alegria que possibilitará vivenciar um Natal – que se aproxima – como “luz de um tempo novo”, como canta Ivan Lins, porque se foram muitos natais na escuridão; em que o aniversariante do dia – para quem professa a fé cristã – volte a ser um sujeito piedoso e de amor infinito, muito distante do malévolo indivíduo, que se pudesse andaria armado.
Riso que elimine todo ódio que foi construído, que desmonte os pilares de uma sociedade cada vez mais egoísta e individualista; onde a gentileza, solidariedade e empatia guiem as relações entre os humanos.
Júbilo de uma noite em que prevaleça o amor e todas as manifestações de afeto; em que pessoas queridas estejam juntas e se (re) encontrem, quase como um encontro de almas, em que a felicidade do abraço dado permita o escorrer de uma lágrima, porque os olhos que brilham expressam os desejos do coração de um Feliz Natal!
Gisele A. Bovolenta – assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo
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