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SUB-VERSÃO

Flores

Impossível não notar aquela presença impactante, e isso apesar da pressa imposta pelo dia a dia, pensava ela, enquanto se dirigia ao trabalho.          O amarelo contrastando com o azul do ceú que só o inverno tem era mesmo uma visão e tanto, e olha que ela nunca gostou muito de amarelo. Não gostava nela, em contraste com sua pele pálida. Mas visto assim, nesse esplendor, um espetáculo gratuito à beira da estrada, o ipê era belíssimo.

         Na semana seguinte, já não estava mais lá, ou pelo menos, não em seu esplendor, o amarelo ardido das flores tinha já cedido lugar ao amarronzado de galhos secos. O ipê mudara, ela também. Aliás, aprendera desde muito pequena essa valiosa lição com eles, a da efemeridade da vida. A incosntância da vida sempre foi para ela motivo de espanto e graça. Daí que a cena do ipê destituído de sua "glória" não a surpreendia.

         O que continuava surpreendendo-a era a beleza que resistia apesar da ausência das flores, era a urgência da vida natural, corajosa em seguir e respeitar seus próprios ciclos.

         Na semana que se seguiu a essa última, não havia mais nenhum resquício da imponente árvore. Em seu lugar, uma enorme lixeira, cheia até a tampa de todo tipo de imundície. O ceú azul de ainda inverno contrastava agora com o negrume de inúmeros urubus. Era a vida cedendo lugar à morte, pensava ela. E essa moça gostava mesmo de pensar. Pensou em qual seria o bicho que teria morrido para atrair aqueles pobres seres necrófilos. Chegou a sentir nas narinas o odor de sua carniça. Cheirou a morte em seu estado mais puro.

         Por um instante, esqueceu-se do trabalho, que era o motivo de pegar a estrada todos os dias. Esqueceu-se do prazo de validade dos ipês e de como, apesar de conhecedora desse seu ciclo natural, todo ano se espanta com sua efemeridade.

         Lembrou-se de olhar o celular, três chamadas perdidas. Conhecia aquela estrada como a palma de sua mão, por que não retornar? Podia, devia ser algo urgente. E a própria vida, não é?

         É.

         Na tela arrebentada pela batida contra o caminhão, a imagem recém registrada do ipê em seu auge resistia, fato que chamou a atenção dos socorristas. Ela já não mais... ou talvez, sim, na lembrança daqueles que a amaram um dia.

         Essa vida é mesmo breve, quase tão breve e encantadora quanto a florada dos ipês.

         Na estrada, agora, não se veem mais o ipê nem o carro da moça, rompendo à toda, a caminho do trabalho. Não há mais trabalho, afinal. Nem a beleza do hipnotizante do ipê, nem nenhuma chamada perdida no celular. A propósito, era o pai dela, naquele dia fatídico. Amanhã, no dia dos pais, um vazio sepulcral ocupará o lugar da costumeira ligação de parabenização.

         E porque a vida é uma estrada esburacada, que não permite desvios, nem atalhos, essa foi a sina da jovem que adorava a efemeridade os ipês. Hoje, mais cedo, quando dirigia na mesma estrada à procura de alguma beleza que aliviasse a tensão do meu dia, por um relance, cheguei a vê-la através do retrovisor. Linda, em um vestido florido, flores de ipê roxo, afinal, nunca gostou muito de amarelo.

 

 

 

 

 

 

 

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