A despeito do que possam sugerir alguns discursos separatistas, todos ganhamos. Ao menos, todos os que acreditam na justiça e na verdade; todos os que, ainda que dolorosamente, preferimos aprender com o passado as lições que não podemos jamais repetir. Todos os que se negam a fechar os olhos para o horror imposto pela ditadura em nosso país.
A história contada pelo filme “Ainda estou aqui” – que ganhou notoriedade mundial – relata apenas uma das muitas atrocidades cometidas pelos militares durante o regime, que nos roubou todos os direitos.
E por se tratar de uma narrativa centrada em um núcleo familiar roto pela prisão e morte de seu patriarca, o ex-deputado Rubens Paiva, a história consegue aquilo que muitos outros enredos nem sequer supõem: trata, com delicadeza e precisão quase cirúrgicas, o horror.
A figura da protagonista, Eunice Paiva, vivida por Fernanda Torres, forte, resoluta, quase que inabalável diante do caos imposto à sua família, beira o heroísmo. No entanto, e é isso que a torna tão envolvente, é absurdamente humana.
O que a ditadura no Brasil tentou, com seus eletrochoques, paus-de-arara e humilhações de todo tipo, foi justamente nos desumanizar. Mas, ao contrário do que supunham nossos algozes, aí está lago que jamais poderá ser destruído. Destruíram famílias, ocultaram corpos, mas a matéria de que realmente somos feitos, nós, os que acreditamos no bom e no justo, não, essa é incorruptível.
E “Ainda estou aqui” veio em hora oportuna nos lembrar da perpétua necessidade da vigilância. A agressão sofrida por Marcelo Rubens Paiva, autor do livro que originou o filme e filho de Paiva durante o carnaval é prova mais do que suficiente de que a cadela do fascismo está mesmo sempre no cio.
Nosso país enfrentou tempos sombrios no passado e a ameaça de seu retorno é constante, haja vista os últimos anos de total intolerância, ignorância e retrocesso que vivemos.
Não permitir que eles se repitam é nossa obrigação enquanto brasileiros.
Resgatar histórias como a de Paiva não é somente necessário, mas urgente. Mostrar ao mundo, e por que não, aos nossos próprios compatriotas, todo esse passado recente e absurdo é tarefa incontestável; e fazê-lo por meio da sétima arte e com a competência de nossos atores e atrizes é simplesmente maravilhoso por si só! Assim sendo, a estatueta dourada foi um mero detalhe.
Mas obviamente que há sim uma glória imensa nessa premiação. Afinal, somos, aos olhos do mundo (ou éramos), um país subdesenvolvido, falamos e escrevemos em português, não dispomos dos orçamentos multimilionários das superproduções norte-americanas, mas somos a América Latina e, em nosso sangue multicolorido, corre a coragem de afrontar os poderosos, como já fizemos mais de uma vez.
Sim, saímos todos vitoriosos com o Oscar de “Ainda estou aqui”, mesmo que não sejam poucos os que insistam em negar esse fato.
O Brasil e o mundo agora sabem do assassinato covarde de Rubens Paiva e de tantos outros... Ainda estamos aqui e não permitiremos que o horror se repita!
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