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Política

Geopolítica sem ilusões: Irã, China e a guerra pela energia da inteligência artificial

O Irã atravessa uma onda de protestos de grande escala. Milhões de pessoas têm ocupado as ruas e a repressão já deixou centenas de mortos. Trump declara que “está pronto pra ajudar”. Mas ajudar quem? Os iranianos em busca de liberdade ou Washington em busca de petróleo mais caro para a China? Essa é a chave da leitura: na geopolítica não há mocinhos nem vilões, há interesses.

A China, maior importadora de petróleo do mundo, trouxe em 2024 mais de 11,1 milhões de barris por dia para dentro de suas fronteiras. Depende de petróleo estrangeiro para 74% do que consome e quase 40% desse volume vem de países sancionados pelos Estados Unidos – Irã, Rússia, Venezuela. Em outubro de 2025, os números mostravam o Irã como principal fornecedor, com 1,9 milhão de barris por dia, seguido pela Rússia com 918 mil e pela Venezuela com 559 mil. O detalhe é que o petróleo iraniano não só é abundante, como também é o mais barato: chega à China com descontos de 10 a 14 dólares por barril, às vezes até 17 abaixo do Brent. O Brent é o preço de referência internacional do petróleo, usado como padrão pelo mercado. Então, quando se diz “17 abaixo do Brent”, significa que Teerã vende seu barril 17 dólares mais barato do que o valor global. Se o Brent está em 80 dólares, o barril iraniano sai por 63. Essa diferença explica por que o petróleo iraniano é tão estratégico: não é apenas energia, é energia barata, que funciona como um subsídio indireto para a economia chinesa. Só em 2023, Pequim economizou 10 bilhões de dólares comprando petróleo sancionado, sendo 7 bilhões apenas do desconto iraniano.

E por que isso importa agora? Porque Estados Unidos e China estão numa corrida de vida ou morte: a corrida da inteligência artificial. E inteligência artificial precisa de uma coisa acima de tudo: energia. Data centers são fábricas de AI e consomem eletricidade em escala absurda. Até 2030, o consumo de energia dos data centers chineses deve crescer 170%, e juntos EUA e China vão responder por 80% do crescimento global. Quem tiver energia mais barata treina modelos mais rápido. Quem treina mais rápido vence.

Nesse contexto, Washington não joga por bondade. Trump já bombardeou instalações nucleares iranianas em junho, já capturou Maduro na Venezuela, considera ciberataques contra forças de segurança locais e ofereceu Starlink aos manifestantes. Isso não é diplomacia, é uma tentativa de derrubar o governo iraniano. Os protestos no Irã são legítimos, a inflação é real, a repressão é brutal, e os iranianos têm todo direito de querer liberdade. Mas o apoio americano não é altruísmo: é cálculo estratégico. Um Irã livre é um Irã fora da órbita chinesa, e isso significa energia mais cara para Pequim.

Sanções não funcionaram, a China sempre encontrou meios de comprar. Mas sabe o que funciona? Tirar quem está no poder e colocar outro governo. Não dá pra comprar petróleo de um regime que não existe mais. Um por um, os fornecedores de desconto estão caindo: Venezuela, feito; Irã, em andamento; Rússia, sangrando na Ucrânia. Cada dólar a mais que a China gasta em energia é um dólar a menos para investir em AI, chips, infraestrutura. Encarecer a energia chinesa é desacelerar o crescimento chinês. Essa é a guerra que os EUA estão travando: uma guerra por energia, uma guerra por inteligência artificial, uma guerra pelo século XXI.

Quem olha para o Irã vê protestos. Quem olha para Washington vê discursos sobre direitos humanos. Mas quem olha para o tabuleiro inteiro vê outra coisa: uma disputa estratégica para frear a ascensão chinesa. Se o Irã cair, a China perde seu fornecedor mais barato e terá de substituir 1,9 milhão de barris por dia a preços de mercado, competindo com EUA, Europa, Japão e Índia. O custo energético da economia chinesa dispara, os data centers ficam mais caros de operar e a corrida da AI se torna mais difícil.

Derrubar o governo iraniano não é sobre direitos humanos. É sobre cortar o fluxo de petróleo barato para a China, encarecer a energia do rival e frear a corrida da inteligência artificial chinesa. Estados teocráticos, como o Irã, são um problema em si: misturam idiossincrasias religiosas com governo, o que gera repressão interna e instabilidade externa. Mas os Estados Unidos não se incomodam com isso quando lhes convêm. Washington se senta à mesa com ditadores sauditas sem constrangimento algum, porque ali o petróleo flui em abundância e os interesses estratégicos estão alinhados.

Os iranianos merecem liberdade, mas no tabuleiro da geopolítica são peças de um jogo que nem sabem que estão jogando.

Paulo Bresssane é historiador, pedagogo e mestrando em Políticas Públicas em Educação.

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