“Nos deram espelhos, e vimos um mundo doente...”(Índios – Legião Urbana)
Os espíritos da floresta lançam ao universo um lamento dolorido, tal como fizeram quando os portugueses aqui chegaram, com suas roupas e suas cruzes, com sua ganância e seu desrespeito absoluto.
É feriado de Corpus Christi, e o corpo de Cristo está enterrado no solo da floresta! Dois cristos mortos, esquartejados e queimados nutrem agora o solo sagrado da floresta que tanto amavam.
Esse mesmo solo que o Cristo pregado pela religião nunca verdadeiramente pisou. Tivesse pisado, abandonaria suas vestes, caçaria e se sentaria humilde ao redor da fogueira para ouvir e aprender da sabedoria dos mais velhos. Correria livre com os indiozinhos, tomaria banho de rio, e tudo isso celebrando a generosidade da Mãe Natureza.
Bruno e Dom entendiam desse completo respeito pelos povos originários dessa terra. E por entenderem, eram aceitos e respeitados pelos indígenas, o que é um assombro, visto que não é a qualquer um que é concedida a honra de estar entre eles, dividindo as crenças e o dialeto.
O vídeo que circulou na internet, onde Bruno entoa um cântico indígena me comoveu profundamente. A língua, esse patrimônio imaterial e absolutamente belíssimo era compartilhada com aquele homem branco. Isso é majestoso!
Um homem branco, cuja vida fora passionalmente dedicada ao estudo e à preservação dos povos da floresta.
Os assassinatos de Bruno e Dom, além de repugnantes são um aviso, desses que os homens brancos inescrupulosos costumam deixar. Assim como o assassinato da vereadora Marielle também o foi.
E esse aviso é sempre muito claro, todo aquele que ousar lutar pelo que é bom e justo nesse país pode ter o mesmo fim.
O que esses malditos homens brancos ignoram é que, a despeito do que imaginam, pessoas como Bruno e Dom são sementes. O solo da floresta está agora mais forte, porque nutrido pela força de seus dois guerreiros mais amados.
O solo das periferias desse país que ainda amo, está diariamente sendo nutrido por sangue negro e pobre.
Somos sementes e resistiremos ao seu ódio e à sua ganância desmedida.
Mas hoje, meu coração é só silêncio, o silêncio profundo de uma floresta enlutada, de uma mãe que perdeu da forma mais injusta e cruel dois de seus filhos mais amados.
Hoje, eu choro, e meu pranto há de se juntar ao dos povos da floresta, há de regar o solo nutrido pela força de seus mais corajosos guerreiros, e há de renascer a esperança, onde hoje só resta dor.
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