Além de “palitinhos”, como é traduzida em Português, a palavra hashi também pode significar “ponte”. Mas acho que, além das traduções citadas, a expressão “treinando a paciência” também definiria muito bem o que são esses instrumentos japoneses usados para a alimentação.
Em nosso lar nipo-brasileiro, aliás, os hashi (sim, em japonês não cabe o “s” do plural) dominam a mesa em todas as refeições. Apenas quando, ocidental(e acidental)mente, atrapalho-me com os grãozinhos de arroz, é que a minha esposa libera-me uma colher. Uma das razões é, claro, de ordem prática: nem toda a paciência oriental do mundo pode esperar que minhas mãos trêmulas, tentando equilibrar o grão de arroz na ponta do hashi, cheguem quase perto da boca... para deixar cair o grão novamente.
Então é com a colher mesmo que me arranjo. Embora, confesso, eu já tenha sido muito pior no manuseio dos palitinhos. Lembro-me de que, em 2001, quando recebi a bolsa de estudos para vir para a Terra do Sol Nascente, fomos convidados, uma dentista e eu, para almoçarmos com o cônsul japonês em Manaus. A dentista, com mais vivência em relação a outras culturas (ela tinha morado um tempo no exterior), não teve qualquer problema com os tais hashi. Já eu, que jamais havia passado nem mesmo perto da colônia japonesa da cidade – tendo, aliás, um conhecimento sobre a cultura nipônica que se limitava ao erótico “O Império dos Sentidos” –, não sabia o que fazer com os hashi sobre a mesa.
Foi quando a Sra. Megumi, uma das trabalhadoras do Consulado, veio ao meu socorro. E, pacientemente, mostrou-me como posicionar os dedos entre os dois palitinhos, de modo que estes me possibilitassem um movimento semelhante ao uso de uma tesoura. Consegui. O que fez com que o Cônsul até me aprovasse com um leve sorriso.
Desde então, uso os hashi da mesma forma que a Sra. Megumi me ensinou. Claro, ainda tenho lá minhas dificuldades, como escrevi no início deste texto, mas, hoje, com o hábito de tantos anos, a coisa já melhorou bastante.
Na semana passada, inclusive, dei até umas modestas dicas ao meu filho, que, com quatro anos de idade, já está começando a se livrar dos “hashi feitos para crianças” (que possuem os dois palitinhos conectados por um elástico para facilitar o manuseio). Para ajudá-lo no processo, inclusive, minha esposa comprou um joguinho que faz com que ele vá treinando os movimentos à medida que vai se divertindo catando os “feijãozinhos de plástico”.
E está funcionando que é uma beleza – cada vez que o pequeno brinca com o joguinho, seus movimentos à mesa vão ficando gradativamente mais rápidos e precisos.
É a paciência japonesa, sobre a qual falei lá no início da crônica, apresentando os seus resultados. Enquanto meu filho, compreendendo tal filosofia com o sábio olhar de uma criança, vai, com um hashi nas mãos, aprendendo, persistindo, melhorando... Crescendo, enfim.
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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, no Japão, na Espanha e em Portugal. Em 2022, teve dois livros premiados no Concurso Internacional da União Brasileira de Escritores-RJ, recebendo o Prêmio João do Rio (para “Livro de Crônicas”) e o Prêmio Luiz Otávio (para “Livro de Trovas”). Foi um dos cronistas escolhidos para compor o livro didático “Se Liga na Língua - 8º Ano” da Editora Moderna (2024). É sócio-correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).
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