Quando nasceu o sétimo filho homem, Maria chorou. Seriam verdade as conversas daquele povo igualmente supersticioso e trabalhador? Aquelas conversas à beira do fogão à lenha, nas noites geladas do mês de junho, sempre lhe botaram muito medo.
Desde menina, ela ouvira falar na sina maldita do sétimo filho homem do casal, que, desgraçado pelo destino, viveria uma vida amaldiçoada, meio homem, meio lobo, completamente impotente diante de sua metamorfose a cada lua cheia, sempre sedento de sangue e alguma paz.
Criança ainda, ela pensava: “Mas que culpa ele tem? Ele não escolheu ser assim... Criança ainda também, ela compreendeu e aceitou que há muitos mistérios insondáveis, aos quais foge toda nossa lógica.
Sete filhos homens? Como ela se permitira chegar àquele número assustador? O que faria agora? A dúvida atormentava o coração daquela mãe. Seu filho estaria mesmo destinado a ser lobisomem?
Seu coração se apertava só de pensar nessa possibilidade, afinal, seria ele mal visto, mal falado, mal quisto e marginalizado do convívio das pessoas ditas “normais”. Ela já podia imaginar a cena em sua mente: O filho nu, coberto de sangue, cercado pela população do distrito, dedos em riste, violência, ódio e martírio.
E cada vez que pensava nisso, sentia seu ventre se contrair. Estaria, naquele reduto sagrado, um monstro sendo formado?
Anos se passaram. Finalmente, chegara a noite tão desesperadamente indesejada, e em meio a gritos de dor, uivos, e muita, muita incompreensão, foi que ele surgiu.
O lobisomem, de fato, sempre estivera ali, como um hóspede indesejado, habitando, oculto, o corpo do sétimo filho de Maria.
Naquela noite, e nas muitas que ainda se seguiriam, tudo o que ela fez foi rezar e agasalhá-lo em seu peito, quando na manhã seguinte, exausto, sem roupa e sem brio, ensanguentado e imundo, ele retornara para casa.
A maior preocupação de todos agora era tentar preservar sua identidade. Paulo era um rapaz forte e trabalhador, não merecia o fardo que sua sina lhe lançava sobre os ombros.
Mas... para o amor não pode haver segredos. E quando naquela manhã, seu olhar esbarrara no daquela moça, ele sabia que, a despeito de qualquer coisa, suas almas se uniriam para sempre.
Como não podia ser diferente, a moça de olhar agateado, em questão, era a filha do coronel... Como é que pode, Jesus, o lobisomem inventar de se apaixonar justo pela filha do coronel?
O fato é que, entorpecido de amor, ele já nem temia mais a poderosa bala de prata, visto que o olhar da amada exercia sobre ele efeito infinitamente mais mortal.
Lobisomem, homem, Paulo, destemido foi logo tratar de pedir a mão da moça ao coronel, que de pronto, cedeu, dadas as circunstâncias. Madalena, a essa altura, já carregava no ventre um filho, fruto de seu amor pelo lobisomem.
Coronel cedeu-lhe a mão, sim, mas não o domínio, que nunca é que aceitou de verdade aquela união, desconfiado que andava há muito dos comportamentos esdrúxulos do rapaz.
Como eram felizes aqueles dois, a quem o amor uniu mais que a morte e qualquer sina. Se antes ele descansava nos braços da mãe, após cumprir a contragosto seu dever, agora, tinha nos olhos verde-esmeralda da amada o porto pra onde retornar.
Uma manhã, contudo, não retornou. A amada, aturdida, saiu feito louca, arrastando o filho pela mão, percorrendo, com a urgência que só tem quem verdadeiramente ama, todo o distrito.
Mas foi ao pé de uma figueira, que, desolada, as mãos buscando tapar os olhos do pequeno, ela encontrou o marido. A cena era desoladora. O grito de dor que ela lançou aos céus soou como um outro tiro, rápido, estridente e doído, feito a bala de prata que matara seu marido, nos ouvidos da gente hipócrita daquele lugar.
Nunca, nunca se achou culpado praquele crime. O coronel? Na verdade, havia mais gente interessada na morte de Paulo. O que se ouve até hoje é que ele não morreu por ser o lobisomem, não. Seu crime não foi esse. Ele morreu numa emboscada, nas mãos dos capangas do dono da fazenda onde trabalhava.
E uma coisa eu digo a vocês, se verdade, se mentira, não sei. O que eu sei é que esse Brasilzão me põe mais medo que qualquer assombração. Aqui, o lobisomem é morto, não por ser lobo e homem, mas por ser é muito homem e enfrentar os desmandos do patrão.
Paulo queria era ver esse latifúndio imenso, um dia, bem dividido, cada qual com seu pedacinho de chão...
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