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SUB-VERSÃO

Inominável

(“O senhor da guerra não gosta de crianças”
A canção do senhor da guerra – Legião Urbana)

Hyago quer ser bombeiro, me confidenciou outro dia, depois de receber meu visto no caderno por ter terminado a atividade proposta para aquela aula.

– E por que bombeiro? – indaguei-lhe. 

– Porque sendo bombeiro, eu posso ajudar as pessoas, professora, até muito mais que um médico. Porque bombeiro, além de apagar fogo, ele ajuda em acidentes, desastres naturais.

– Eu tenho certeza de que você seria um ótimo bombeiro Hyago! Mas será que ainda não vai mudar de ideia, quando for mais velho? – provoquei-o.

– Não, eu quero ser bombeiro desde pequenininho, professora. Já me disseram que eu não vou poder, por causa da minha altura. Será que é verdade, professora?

– Não, acho que sua altura não será um problema, não. Além do mais, você ainda está crescendo. Sabe, quando eu tinha a sua idade, era bem mais baixinha que minha irmã. Quando entrei no Ensino Médio, eu a ultrapassei. Hoje, sou bem mais alta que ela.

– Sério, professora?

– Sério.

Ele sorri por debaixo da máscara. Adoro ver os sorrisos deles, mesmo que seja quando de um rápido relance, ao abaixarem a máscara para tomar água. Sorriso de criança é sagrado. É Deus lembrando-nos da necessidade da esperança, do afeto, da ingenuidade e do amor.

Hyago será o bombeiro mais competente e apaixonado que eu já conheci, estou certa disso. Aliás, e é claro que isso não vai acontecer, como ele mesmo veementemente afirmou, se mudar de ideia e, de repente resolver ser jogador de futebol, ou médico ou advogado ou professor, ou lojista, o que quer que seja, Hyago será o melhor!

Essa certeza, sentida assim, no fundo do meu coração de professora, me acalanta, ao passo que as notícias replicadas pelos jornais e pela TV acerca das crianças ucranianas me entristecem profundamente.

Tenho evitado as notícias, não porque seja uma alienada, mas porque elas me doem. A cada notícia, e honestamente demorei a acreditar que viveríamos mesmo uma guerra em pleno século XXI, minha crença naquilo que um dia chamamos humanidade é violentada.

De minha última teimosa leitura, restou-me a informação de que ao menos 16 crianças já morreram nessa guerra atroz. Dezesseis! E, honestamente, recuso-me a qualquer atualização de dados.

Dezesseis seres humanos em formação, que, ao contrário do meu Hyago, não viveram para realizar seus sonhos e vontades, mas morreram sem nem saber o porquê, para que a vontade dos poderosos senhores da guerra fosse concretizada.

Médicas, bombeiros, professores, artistas, escritoras... O que essas crianças se tornariam, não fosse o horror da guerra? 

Eu não sei. Aliás, sei muito pouco sobre guerras e suas motivações. Para mim, nenhuma, absolutamente nenhuma motivação, por mais forte ou urgente que seja justifica a guerra.

Depois dessa nossa conversa, Hyago perguntou o que podia fazer, já que já havia terminado suas atividades. Eu respondi que, se quisesse, podia ajudar algum colega que estivesse com dificuldade.

Ele, bom bombeiro que é, foi e com um sorriso no rosto, pude notar pelas pregas ao redor dos olhos um tantinho puxados e muito, muito brilhantes.

Estamos aqui para esse propósito, foi o que Hyago me lembrou naquela tarde. Ajudarmo-nos uns aos outros. Daí minha comoção ao saber que há muitas pessoas ajudando os estrangeiros que vivem na Ucrânia. Há muitas pessoas recebendo refugiados, providenciando-lhes o que de comer e algum conforto.

Por ora, conforta-me saber que ainda verei Hyago em sua farda de bombeiro e muitos de seus colegas nos lugares que sonharam. E rogo a Deus que nos perdoe por assassinar seus anjinhos, sejam eles ucranianos, russos, afegãos, iranianos, palestinos, cariocas...

Noite dessas, sonhei com a paz, ela tinha olhos vivos e um sorriso de criança.

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