news-details
SUB-VERSÃO

Junte as primeiras sílabas das palavras que iniciam os quatro primeiros parágrafos

Genésio gritava, desesperado: Tá morrendo gente aos montes! É isso mesmo, gente morrendo aos montes! Será que ninguém está entendendo? Negar o que já é um fato não o torna mais ameno. Gritava o adolescente, na tentativa exaustiva de convencer aos pais de que o melhor a fazer naquele momento era ficarem em casa.

No dia em que noticiou-se a chegada do vírus ao Brasil, Genésio assustou-se. Seus pais, não. Subestimaram desde o início a gravidade da situação. “Uma gripezinha”, repetiam sempre que questionados sobre a nova doença.

Cidades com lotação máxima em suas UTI’s, gente morrendo à espera de uma vaga. É esse o cenário atual de nosso país. Como é que pode uma gripezinha fazer tanto estrago? Essa pergunta martelava na mente do garoto, que, mais do que por sua própria vida, temia pela vida dos pais, já idosos.

Da vida que levávamos, pouco restou, ele pensava. Tinha mesmo a impressão de que jamais voltaríamos a ser os mesmos. E a máscara seria a lembrança mais sutil desse período de tanta tristeza.

A máscara que muitos ainda insistem em usar com o nariz para fora. A máscara que muitos ainda se negam a usar, e justificam essa atitude absolutamente absurda com argumentos estapafúrdios.

O vírus veio mostrar nosso grau de desumanidade, é isso? Veio escancarar nosso egoísmo? Veio acentuar ainda mais a desigualdade desse nosso país tão rico e com tantos miseráveis?

Ah, sim, ele veio mostrar a completa inabilidade política de nossos governantes, sua total incompetência para gerir situações de crise, sua descompostura.

Ele era só um adolescente, mas eram esses os pensamentos que o agoniavam, e ele os escreveu um a um, na redação que a professora pediu na apostila de atividades remotas.

Ele sentia saudade da escola, dos amigos, até mesmo da professora exigente. Mas ele sabia que não era o momento de retornar.

Ele sabia, e era só um adolescente.

Sozinho no seu quarto, vez por outra, ele chorava. Não porque tivesse perdido algum familiar em função do vírus, mas porque sentia uma espécie de tristeza coletiva, um cansaço quase que espiritual diante dos acontecimentos tétricos que presenciava, dia após dia, no país que tanto amava.

Ele sonhava com o dia, muito, muito distante, em que a vacina chegaria a todos os brasileiros, mas ansiava ainda mais pelo dia em que a educação e a empatia chegariam também aos brasileiros.

Mais ainda, o adolescente desejava presenciar o dia em que os brasileiros, deixando de lado birras e ódios tolos, soubessem utilizar seu direito de escolha para eleger alguém a quem realmente pudessem chamar presidente.

Mas parece-me que, tão distante quanto a vacina que nos protegerá do vírus, está aquela que nos fará uma nação consciente...

E muitos Genésios ainda gritarão e não serão sequer ouvidos. Muitas famílias ainda chorarão a dor da morte daqueles a quem amavam. Até quando, meu Deus, até quando?

Você pode compartilhar essa notícia!

0 Comentários

Deixe um comentário


CAPTCHA Image
Reload Image