(Não ao “PL do estupro”)
Eu nunca tinha sentido aquele cheiro antes, não era como o dos meninos com quem brincava até ficarmos molhados de suor na rua. Não, era um cheiro forte de suor, um cheiro doído de homem feito, um cheiro animalesco.
Ainda sinto esse cheiro, ele está impregnado em mim, quisera eu fosse o cheiro da colônia do garoto que eu gostava na época, mas não...
Cimento úmido, eu ainda sinto o cheiro do cimento úmido das paredes daquela construção e toda sua aspereza. Me tornei áspera também depois daquele dia.
Disseram que foi minha culpa, mas o que é que uma menina de onze anos sabe sobre essas coisas, moça? Me diz... Naquela época não tinha Educação Sexual na escola, não.
Eu brincava de boneca quando ele se aproximou, ainda me lembro da textura da borracha da pele macia de minha filhinha, e lembro também do quanto ela diferia da do meu algoz. Minha filha foi jogada ao chão, talvez porque ele soubesse que estava prestes a enfiar-me uma outra, nova e real útero a dentro. Eu saí pra brincar e voltei embuchada pra casa.
O barulho, o barulho também nunca saiu da minha cabeça, o barulho e a quentura úmida daquela mão forte e asquerosa em minha boca. Não conseguia gritar, moça, não conseguia! Sabe aqueles sonhos que vez por outra a gente tem em que se vê em alguma situação de perigo, tenta gritar, mas a voz não sai. Eu tentei moça, tanto a ponto de sentir minha garganta sangrar.
Eu vi o sangue no chão, moça, misturando-se ao cimento úmido. Eu não entendia, só fazia doer, e eu pensei que ele tivesse me cortado, moça. Juro que pensei. O sangue também está até hoje impregnado em minhas narinas, cheiro de ferrugem, cheiro da minha vergonha.
Ao menos nisso somos todos iguais, todos sangramos. Eu não me arrependo do que fiz, moça, quando anos mais tarde voltei àquela construção, agora casa, lar do ser mais abjeto com quem já me defrontei. Eu o fiz sangrar também, moça, e o fiz por mim e por todas as meninas a quem ele separou de suas filhinhas. Só Deus sabe onde foi parar a minha, arrancada de mim por aquele monstro. Parece que ainda a ouço chorar, o choro sentido dos bebês separados de suas mães, mas eu só era mãe de mentirinha, até que aquele ser abjeto me tornou uma criança-mãe. E acaso existe isso, moça?
Por que Deus assim quis, ou porque simplesmente meu corpo pueril não suportou a tarefa de carregar outra criança, sofri um aborto espontâneo, mas se isso não tivesse acontecido, o que seria do resto que sobrou de mim, hein, moça?
Aquele verme nunca foi preso, nem sequer cogitado como o estuprador que sempre foi, gente finíssima, querido frequentador das casas do bairro e das filhas dos amigos. Maldito!
Ao menos consegui marcá-lo, isso mesmo, repare bem, ele tem um L na cara, eu mesma que fiz.
- O quê? Você estava o tempo todo falando do Sr. João? Aquele pedreiro antigo aqui do bairro? Meu Deus! E por que um L?
- Por que um L? Porque minha filhinha se chamava Laurinha.
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