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Religião

Lavagem das Escadarias da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos promove cultura de paz e diálogo

A ABUC (Associação Bragantina de Umbanda e Candomblé) e o Grupo Inter-religioso de Bragança Paulista, por meio da Comissão Diocesana para o Ecumenismo e Diálogo Inter-religioso, com o apoio da Diocese de Bragança Paulista, por meio da Paróquia Catedral Nossa Senhora da Imaculada Conceição, realizam, neste sábado, a partir das 10h, a 1ª Lavagem das Escadarias da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, em Bragança Paulista.

Há 18 anos, o Dia Nacional de Ação de Graças é celebrado no município como um momento de agradecimento a Deus por mais um ano de louvor e serviço ao bem comum. Atualmente, os líderes religiosos de Bragança Paulista e região têm se reunido periodicamente, buscando organizar uma agenda anual de compromissos. A partir de um projeto que promove uma cultura de paz por meio de iniciativas educativas, o grupo procura compreender melhor as necessidades reais de cada comunidade religiosa.

Promover a paz significa empenhar-se pelo bem comum, entendido como a garantia dos direitos humanos fundamentais de cada pessoa, inclusive o direito à liberdade religiosa. Por meio do diálogo e do aprofundamento de estudos, o grupo reconheceu a necessidade de ações concretas contra a intolerância religiosa. A lavagem expressa essa cultura de paz como um gesto antirracista, pois a intolerância religiosa é compreendida por muitos, especialmente por tradições de matriz africana, como uma forma de racismo religioso.

Bragança Paulista, historicamente, expressa a resistência de um povo que, em meio à colonização, soube se organizar e articular uma espécie de previdência social para os negros – uma ação pioneira à época – por meio do Clube Social dos Negros. Ainda durante o período colonial, também se organizaram em irmandades católicas e, por meio do clube recreativo, deram origem à escola de samba. Entretanto, infelizmente, mesmo após a abolição, o racismo persiste em situações cotidianas, como quando crenças de origem africana são demonizadas ou subjugadas. O acesso a direitos fundamentais ainda representa um grande desafio para essa população.

Sensível a esse clamor, o Grupo Inter-religioso, juntamente com a Diocese de Bragança Paulista, entende como essencial sinalizar o caminho da fraternidade e da amizade social como possibilidade de convivência comum. Para nós, católicos, essa atitude está intrinsecamente ligada aos princípios que orientam o diálogo da Igreja Católica com as religiões não cristãs, conforme a Declaração Nostra Aetate, que em 28 de outubro completou 60 anos. Alguns ensinamentos fundamentais desse texto conciliar são:

 - Toda pessoa humana tem sua origem e finalidade em Deus;

 - A Igreja Católica nada rejeita do que, nessas religiões, existe de verdadeiro e santo;

 - Com prudência e caridade, diálogo e colaboração, dando testemunho de fé e vida cristã, é preciso reconhecer, conservar e promover os bens espirituais, morais e os valores socioculturais presentes nessas tradições;

 - Não podemos invocar Deus como Pai comum de todos se nos recusamos a tratar como irmãos alguns homens;

 - A Igreja reprova, como contrária ao espírito de Cristo, toda e qualquer discriminação ou violência praticada por motivos de raça, cor, condição ou religião.

A declaração ainda nos convida a observar uma conduta exemplar no meio dos homens (cf. 1Ped 2,12) e, se possível, viver em paz com todos, de modo a sermos verdadeiramente filhos do Pai que está nos céus. Para nós, o “imperativo categórico” é o amor – ele precisa ser a prioridade. Por isso, esta e outras iniciativas se inserem no espírito cristão, pois a caridade consiste em amar sem discriminações ou violência de qualquer tipo, a todas as pessoas, já que somos irmãos, filhos do mesmo Pai. Promover uma cultura de paz é o que se busca com essa ação: um convite a acreditar na possibilidade de superar o racismo e a desigualdade social. A lavagem é sinal dessa fraternidade e desse caminhar, pois não há caminho para a paz: a paz é o caminho.

A tradição da lavagem surgiu em 1773, quando a Igreja do Bonfim, em Salvador-BA, foi oficialmente consagrada. Os negros escravizados eram responsáveis por limpar a igreja antes da grande festa do Senhor do Bonfim e, em um ato de fé, recorriam também a Nossa Senhora do Rosário, a quem atribuíam inúmeras graças alcançadas. A limpeza era realizada com água, ervas cheirosas e cantos tradicionais, transmitidos pela sabedoria ancestral africana.

A lavagem é um ritual de fé, cultura e resistência, por meio do qual o povo negro expressava sua espiritualidade de maneira alegre e acolhedora. Hoje, o gesto reúne também outras religiões e pessoas de boa vontade, que reconhecem no respeito mútuo o caminho para uma convivência mais pacífica.

No Dia de São Francisco de Assis, somos chamados, como “instrumentos da paz”, a sermos sinais de fraternidade universal, reconhecendo que somos todos irmãos e cuidando da criação, nossa Casa Comum. Que o Senhor nos conceda a sua paz, para que possamos levá-la ao mundo como paz e bem, assim, poderemos ouvir sermos chamados de bem-aventurados e filhos de Deus, pois “bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus”.

Que Nossa Senhora do Rosário dos Pretos conceda muitas graças a todos os seus filhos e filhas, pois ela é a Mãe que ama e cuida de todos!

Pe. José Antonio Boareto
Assessor para a Dimensão do Ecumenismo e Diálogo Inter-religioso de Bragança Paulista

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