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SUB-VERSÃO

“Lourenço”

(Texto em homenagem ao professor, cidadão e amigo Lourenço Braz Lattanzi)

Ainda me lembro do dia em que o conheci, na fila da entrega dos documentos para assumir nossos cargos de professores no concurso público. À primeira vista, aquele homenzarrão, de voz grande também, correto, consciente de seus direitos, confesso, assustou-me um pouco. Professor de História... O que me fez relembrar minha vontade de estudar História também, quando ainda adolescente vi minha cabeça fervilhar pela dúvida entre essa matéria e Letras.

Lourenço era mesmo assim, grande, e sobretudo um ser humano de estatura raríssima, direto, sem papas na língua, correto, fiel aos seus ideais e defensor da democracia, do povo e da dignidade humana.

Tinha alma de artista, conversava com a viola como quem conversa com um amigo de longa data, tirava dela confissões, que só a ele fazia. Cantava a beleza da vida que existia em cada pequeno momento e, por isso mesmo, merecia ser valorizada.

Um professor que professava aquilo em que acreditava. Com ele, nada de respostas prontas, seu ofício era apenas instigar o aluno para a construção de seu próprio conhecimento. E quantas não foram as vezes que o vi subir as escadas de viola na mão, e depois, ouvi os alunos cantando com ele, no que eu supunha então ser muito mais que uma simples aula de História.

Quando saía da sala, quase sempre deixava as anotações no quadro, e eu ria, não das anotações, mas da força que empregava ao giz contra o quadro para fazê-las, e depois brincava com ele na sala dos professores:

– Nossa, Lourenço, tô até com dor no braço...

Ao que ele respondia, com seu vozeirão grave, em tom de riso: – Ah, bonitona, queria que eu apagasse pra você? Pode deixar que da próxima vez, eu apago. Nunca apagou.

Lourenço tinha convicções tão firmes quanto sua caligrafia. E isso jamais será apagado. Nunca será apagado. Seu legado enquanto ser humano e enquanto professor jamais será apagado.

E é mesmo uma pena que nosso intervalo tenha durado tão pouco. Queria ouvi-lo mais, aprender mais com você sobre o mundo e as pessoas, sobre a música e a poesia, sobre a arte de viver aquilo que se crê.

Se eu pudesse falar com o Diretor aí de cima, tenha certeza, ia pedir na cara dura para estender esse intervalo, porque precisamos do som da sua viola, porque precisamos da sua voz grave e de suas convicções para nos lembrar de que devemos ser autênticos, como você era. Como você é.

Obrigada por tanto, meu querido... Em breve nos reencontraremos, e aí, o intervalo será eterno!

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