news-details
SUB-VERSÃO

MÃE

Meus olhos grandes de tudo observar detiveram-se outro dia numa cena cotidiana. Em meio ao trânsito, cada vez mais feroz de nossa já não tão pacata cidade, uma mulher, uma deusa, uma força motriz da natureza, uma maltrapilha empurrava um carrinho de supermercado no meio da avenida. Resoluta, compenetrada na tarefa de transportar através do caos instalado seu bem mais precioso. E me causa certa estranheza usar essa palavra “bem”, tão comumente usada para referir-se àquilo que o dinheiro pode comprar.

E a avenida não ousava, apesar de toda a sua violência, engoli-la. Era ela, com sua figura esquálida que a intimidava, e muito mais do que faria uma dessas madames com a suposta elegância de suas pashminas e saltos altos, ecoando nos corredores do mercado mais caro da cidade.

Ela tinha olhos vorazes, cheios de uma vida, que, contraditoriamente parecia se esvair do seu corpo.

Mas era o carrinho o que mais chamava a atenção. Absolutamente vazio, não fosse pela presença doce e perturbadora de uma boneca.

Sim, uma boneca! Limpíssima, bem cuidada, a bebê estabelecia uma espécie de contraste assustador com a “dona”. Mas as mães não são mesmo assim? Abrem mão de si mesmas para oferecer qualquer alento e conforto que seja aos seus rebentos. 

Seus olhinhos de plástico incrivelmente real e brilhante, olhavam para a mulher com profunda admiração, e quase que pude ouvi-la chorando quando a pobre mãe negou-lhe, doída, o peito murcho. Quase pude sentir sua pele emborrachada, sua pele suave de bebê, quando a sofrida mulher embalou-a nos braços esqueléticos, enquanto entoava uma linda e inédita canção de ninar, talvez só compreensível mesmo aos ouvidos sensíveis de sua garotinha.

Era sua filha, estava nítido. Era ela sua mãe. 

A filha que abortara anos antes, a filha que nunca chegara a conceber, visto que um organismo com tamanha deficiência de nutrientes jamais seria capaz de gerar uma vida... A filha que perdera para a doença ou para a fome. Não importa, era sua filha.

E não, não era um carrinho de supermercado, como erroneamente mencionei no início desse relato. Era um carrinho de bebê, um luxuoso carrinho de bebê, que até brinquedinhos coloridos e barulhentos pendurados tinha.

Era a vida se perpetuando sobre a morte no centro conturbado da cidade. Era Deus, e por que se fez amor, era só uma mãe e isto me bastou.
 

Você pode compartilhar essa notícia!

0 Comentários

Deixe um comentário


CAPTCHA Image
Reload Image