Projetos contemplados pela Lei Aldir Blanc trazem questões sociais para o centro o debate
A Lei de Emergência Cultural Aldir Blanc é, essencialmente, uma lei social. Surgiu para atender trabalhadoras e trabalhadores do setor cultural que, por conta da pandemia, ficaram impossibilitados de exercer seus ofícios. A aplicação da LAB (Lei Aldir Blanc) investiu R$ 3 bilhões vindos do FNC (Fundo Nacional de Cultura) em ações emergenciais dirigidas ao setor cultural, na forma de auxílio, subsídios e fomento.
Em março de 2020, no início da pandemia, deputadas e deputados federais, de diferentes partidos e ideologias políticas, apresentaram diversos projetos de lei com a mesma finalidade: proteger o setor cultural, parado e sem perspectiva de trabalho e, consequentemente, de renda. Todas as propostas foram reunidas no PL 1075/2020, de autoria da deputada Benedita da Silva (PT/RJ). Todo o processo de construção e elaboração do texto final teve a participação de movimentos sociais, entidades representativas e sociedade civil, em web conferências realizadas com a participação da relatora, a deputada Jandira Feghali (PCdoB/RJ).
A LAB é uma lei social não apenas por ter tido a participação efetiva da sociedade por ouvir as demandas daqueles a quem ela se destinava. Mas também por socorrer os trabalhadores da cultura, oferecendo-lhes recursos, a partir de verba que era por direito deles, já que veio do FNC, para sobreviverem em meio às incertezas da pandemia.
Nem todos os municípios conseguiram cumprir as regras para que pudessem receber recursos da LAB. Bragança Paulista conseguiu, graças ao trabalho realizado entre poder público e sociedade civil, por meio da parceria da Secretaria Municipal de Cultura e do Conselho de Política Cultural, na época representados pela figura da mesma pessoa, Ana Lúcia Pereira, que estava secretária de cultura e presidente do conselho.
Diversos agentes culturais tiveram seus projetos contemplados em edital da LAB lançado pela prefeitura do município. Alguns desses projetos buscaram trazer, também, a questão social, e não apenas a cultural, para a frente do debate. O Jornal Em Dia conversou com realizadores de três deles, que refletiram como a cultura, mais do que apenas entretenimento, deve ser, também, agente e transformação social.

O projeto “Invisíveis”, de Mário de Almeida trata sobre os três clubes negros da história de Bragança Paulista, o Clube os Escravos, o Clube 13 de Maio e a Arcab (Associação Recreativa e Cultural Afro-Brasileira). O resultado que será conferido pelo público será um filme, ainda sem nome, a ser lançado em abril. Mas, para ele, o projeto é bem mais do que o produto audiovisual. “O documentário é uma das etapas do projeto, uma amostragem da pesquisa que foi realizada, que abrange o contexto desse tema central, mas que, ao longo do processo, foi mudando um pouco de foco”, explica. Além de Mário, o projeto conta ainda com Carolina Scatolino, Izilda Toledo, Paula Martins e Emily Moura. “Eu me reconheço na posição de privilegiado, não só por ser homem, mas por branco, e eu entendo que eu preciso contribuir, de alguma forma, para que as questões ligadas ao racismo no Brasil, tenham reflexões mais interessantes do que apenas ‘todas as vidas importam’ quando você fala que vidas negras importam. E, se eu posso usar a minha arte, a minha força de trabalho, a minha estrutura e produção, pra fazer isso, eu quero fazer. Agora, se eu vou fazer, eu preciso saber até onde eu posso entrar nessa história, qual é o meu lugar nisso”, analisa.
Além da contribuição da professora Izilda Toledo, com conhecimento histórico e vivência, Mário fez questão de trazer duas estagiárias negras para a produção. Não apenas para que o projeto possa contribuir para a formação profissional delas, mas também para que elas tragam as contribuições e visões de mundo delas, para dentro do projeto. E foi o que aconteceu, de forma inesperada, ou não programada. Quando foram gravar uma das diversas entrevistas do documentário dentro do Museu Oswaldo Russomano, Paula trouxe o questionamento sobre a história de quem os museus, de forma geral, conta. Invariavelmente, a história das pessoas brancas, como se as pessoas negras não tivessem passado e nem história, além do que se fala nos livros sobre seus antepassados que foram escravizados. O questionamento de Paula a trouxe para a frente das câmeras: de assistente de produção, se tornou personagem a ser entrevistada.
Ainda em produção do filme, Mário está em busca de imagens e arquivos pessoais que contem a história de pessoas negras em Bragança. Quem tiver algum material para disponibilizar pode entrar em contato pelo Instagram da produtora Maravilha Filme, no link : https://www.instagram.com/maravilha_filmes. O lançamento do filme acontece em 28 de abril, as 19h30, pelo YouTube da produtora audivisual.
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Desdobramento de um encontro entre o músico Felipe Antunes e o poeta Oswaldo de Camargo, Inter Vista é uma homenagem ao poeta e à Izilda Toledo, figuras negras bragantinas das mais importantes na história da cidade. Curiosamente, Oswaldo saiu cedo de Bragança e teve sua importância reconhecida por aqui recentemente, agora, com uma praça que levará seu nome. Izilda atua localmente no movimento negro há décadas, embora hoje se recionheça mais como uma “negra em movimento”. Colocar ambos no mesmo projeto, em papel de igualdade é reconhecer que a importância de ambos se equivale e que ambos merecem ser celebrados, em vida, por suas realizações.
“Celebrar os mais velhos é uma maneira da gente não esquecer o que veio antes. Quanto mais a gente produzir conteúdo de qualidade com as falas, com a participação de pessoas tão importantes, mais gente vai ver, vai estar mais acessível”, diz Jackeline Stefanski Bernardes, produtora do projeto.
“Temos a intenção de extrair um pouco da percepção de mundo deles. A nossa intenção é mostrar que a biografia de cada um fez com que tivessem percepções de mundo muito importantes sobre as coisas. É como um documento para as outras gerações”, completa Felipe.
“O resultado desse projeto pretende ser um documento histórico poético que homenageia essas duas pessoas. Uma oportunidade perene de celebração da memória, de apresentação de contexto histórico da cidade de Bragança Paulista e de dois de seus expoentes em áreas culturais preciosas, como o são a educação e a literatura.”, falam.
O projeto será produzido em abril e ainda não tem data de lançamento.

Documentário que dá voz às pessoas LGBTQIA+ de Bragança Paulista e região, a ideia do filme Diversidade Interiorana surgiu a partir do projeto Ancorades, de Vanessa Zenorini. “O objetivo é usar o audiovisual para empoderar pessoas LGBTs e disseminar informações através de conteúdo digital, focando em vivências interioranas, para trazer representatividade e formar simpatizantes. Eu sinto muita falta, em Bragança, de ações direcionadas para a comunidade. A gente só tem a semana da diversidade, por conta da parada, mas o resto do ano o assunto fica vago. Eu quero, com o projeto, tentar realizar encontros, gerar debates, coisas que eu considero superimportantes e sinto falta que aconteçam na Região Bragantina”, explica.
O projeto não foi filmado apenas em Bragança. Tanto a equipe quanto os entrevistados são pessoas de cidades vizinhas, como Atibaia, Piracaia e Bom Jesus dos Perdões. Vanessa também teve a preocupação de trazer o empoderamento de pessoas LGBT para dentro da equipe, chamando pessoas da comunidade para trabalhar na produção. Isso não só coloca a intenção do projeto em prática efetivamente, como faz com que os entrevistados fiquem mais à vontade para falar de suas vivências pessoais. “Esse foi um ponto importante levantado pelo pessoal que participou. Gostaram bastante da troca, por poder conhecer outras pessoas e por perceber que as vivências se entrelaçam”, explica a diretora.
O filme será exibido no dia 27 de março,, as 20h, pelo canal Ancorades, no YouTube (https://cutt.ly/blczUZM).
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