Rememoramos neste 2022 o Bicentenário da Independência do Brasil, onde nas margens do Rio Ipiranga há 200 anos – como narra a história contada – Dom Pedro I bradou “Independência ou Morte” a um país surrado, repleto de conflitos internos e pobreza generalizada, que buscava romper os laços com Portugal, enquanto colônia de exploração.
Tal cena foi retratada no célebre quadro do pintor paraibano Pedro Américo como o registro oficial deste momento, o que ajudou a construir uma identidade nacional e patriótica de um país que cultua mitos e heróis.
Embora o ocorrido não tenha sido exatamente deste modo, a fantasia cultuada percorreu o tempo também em canções que pintavam um Brasil irreal – talvez idealizado por seus compositores, talvez inocente em abraçar a narrativa vigente da história – cujas melodias nos fazem, quase sempre, mexer os quadris e balbuciar suas letras, como em “Aquarela do Brasil”, samba de Ary Barroso de 1939. A canção, que chegou a sofrer censura da Ditadura Varguista, foi cantada por inúmeros intérpretes, dentro e fora do país, mas sofreu várias críticas ao narrar um país inexistente.
“A terra de nosso senhor” abraça a centralidade na fé cristã, num exercício poético de ignorar outras crenças – ou mesmo a sua ausência – amenizando sua imposição em um país onde Deus é brasileiro e anda armado por aí.
Na “terra boa e gostosa”, suas maravilhas e benesses não se estendem a todas as pessoas; é um país com suas contradições, que acumula riqueza, mas milhares de pessoas passam fome, vivem em condições precárias de subsistência e não contam (ou contam de forma precária) com redes de proteção social e direitos sociais.
País que ainda não sanou sua divida socialmente acumulada, a qual vem sendo paga a passos de tartaruga, com avanços e recuos, fruto de muita luta, mobilização e resistência, como as políticas de ações afirmativas, que passam por sua primeira década também neste 2022.
Lugar cuja natureza respira com a ajuda de aparelhos, com seus desmatamentos recordes; onde a fauna e flora estão morrendo silenciosamente; onde a biodiversidade, povos originários, florestas, animais estão gradativamente sendo extintos, dando um colorido cinza para o país.
Nesse “Brasil lindo e trigueiro; é o meu Brasil brasileiro; terra de samba e pandeiro”, exalta-se um país ufanista, que abafa seu cotidiano de machismo, racismo, feminicídio, violência e preconceitos de raça, gênero e renda. O que é explícito e declarado – sem surpresas – pelo atual chefe do executivo e sua legião de machistas tóxicos, que saíram do armário ao se sentirem representados.
Ainda que essa história esteja sendo recontada – ao ouvir outros personagens, que foram ocultados, esquecidos ou desprezados, como as mulheres, indígenas e negros, os quais nunca baixaram suas cabeças ou deixaram de lutar por seus direitos e necessidades – o país não foi capaz de abrir sua “cortina do passado” de fato, ao, por exemplo, punir e julgar os crimes ditatoriais. Os militares passeiam e desfilam livremente por aí, mantêm seus privilégios e são ainda referenciados, lembrados e exaltados como heróis no país.
Impunidade que alimenta cenas emblemáticas – em outros países plausíveis de punição – como durante a votação do impeachment da ex-presidenta Dilma em 2016, em que um dos parlamentares dedicou seu voto ao maior torturador do Regime Militar: Carlos Alberto Brilhante Ustra!
Sim, ainda há muita luta pela frente para termos um país mais justo e igualitário, que enfrentou de fato seus problemas estruturais e conseguiu acertar as contas com seu passado...
Retrato que seguimos pintando na luta – diária e cotidiana – por dias melhores, construindo uma narrativa fidedigna com nossa história, que nos permita, longe de um patriotismo patético, embobado e servil, bradar: esse é meu Brasil brasileiro!
Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo.
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