Na semana que passou, vi, nas Notas de Sepultamento deste jornal, que o senhor Unirso Depentor, ex-proprietário da Padaria Cardoso, atualmente “Nova Cardoso”, nos deixou deste plano terrestre. Logo me voltou à memória uma reportagem que fiz com ele, no ano de 2011, sobre o período em que foi proprietário da padaria e, por isso, considerei ser uma homenagem merecida escrever sobre o assunto, visto que o Sr. Unirso e sua esposa, Lúcia Depentor, foram os que trouxeram para a cidade a novidade da venda de massas de pizza pré-assadas e molho pronto por meio da Padaria Cardoso. Explico:
Fazendo um rápido retorno ao passado, destaco que consegui o contato do senhor Unirso Depentor na época, por meio do Sr. Jayme Grasson, que até hoje é proprietário da Padaria Nova Cardoso, o mais antigo comércio da cidade, que sobrevive há 143 anos. Na conversa com seu Unirso, soube que ele foi proprietário da padaria do ano de 1969 até dezembro de 1984. Nesse período, no ano de 1979, a padaria, que era localizada dois quarteirões acima do local atual, passou por um incêndio, segundo relatou-me seu Unirso.
“No ano de 1979, um curto-circuito nas instalações elétricas na loja ‘Aliança de Tecidos’, que ocupava parte do prédio da padaria, originou o maior incêndio já visto em nossa cidade. Seu Unirso conta que, naquela noite, acabara de voltar de São Paulo, de onde trazia mercadorias e, ao sair do carro, percebeu um clarão no interior da loja que na verdade era o inicio do incêndio. Correndo até os fundos da padaria, num prédio praticamente independente da mesma, viu os padeiros trabalhando sem perceberem que o fogo estava destruindo a loja de tecidos, a padaria e a alfaiataria anexa... enquanto todos se desesperavam observando as chamas, relembra seu Unirso, que demonstra na sua fala uma característica forte, a de enfrentar os desafios sem ficar remoendo o que poderia ter sido feito; saiu procurar na redondeza um local para colocar o maquinário pois o importante era manter a fiel freguesia que morava naquelas imediações. Os pães, mesmo naquela noite fatídica que marcou o desaparecimento de três estabelecimentos comerciais de nossa cidade, continuaram a ser preparados pelos padeiros, pois o fogo não atingiu o local onde estavam. Dois quarteirões abaixo, na Rua Barão de Juquery, seu Unirso sabia da existência de um armazém. Foi até lá para ver a possibilidade de ali se estabelecer e enquanto olhava pelas frestas da porta de aço (que até hoje é a mesma) para verificar o local; ele nem precisou ir à procura do dono que já vinha ao seu encontro. Relembra que enquanto observava o imóvel, sentiu uma mão apoiando em suas costas. Era o proprietário, que lhe falou: ‘eu sabia que você viria aqui’. Tirou do bolso as chaves do local e disse: ‘é seu, pode trazer suas coisas e depois conversamos’ e foi embora. Segundo seu Unirso, a bondade, solidariedade e desprendimento dos bragantinos, em muitos momentos, contaram muito para a Padaria Cardoso se reerguer. Sem perder tempo, o maquinário e os cestos de pães foram levados ao novo local e, naquela manhã, os fregueses da padaria puderam adquirir e saborear o pão, como faziam todos os dias. O incêndio obrigou o proprietário da tradicional padaria a mudar de endereço. Por isso, após a reforma, como explica seu Unirso, ela passou a chamar-se Padaria ‘Nova Cardoso’”.
Soubemos, pelos relatos de seu Unirso, “que o pão de maçã era receita tradicional do local e a novidade na década de 70: a padaria trouxe aos fregueses a venda da massa de pizza semi-pronta acompanhada dos saquinhos com o molho de tomate também pronto, preparado por sua esposa, sra. Lúcia Depentor”.
E aqui chegamos ao final de nosso relato, relembrando aos bragantinos o precursor das tão práticas e famosas pizzas semi-prontas que, certamente, grande maioria de bragantinos garantia na padaria o cardápio do sábado à noite, num tempo em que não se pensava em pizzarias como existem atualmente. E encerro, como diria meu saudoso pai: “o senhor Unirso Depentor foi um vargense que fez parte da história de nossa cidade, por participar de tantas mudanças comerciais e sociais de Bragança Paulista da década de 1970 e 1980. Descanse em paz, senhor Unirso!”
Para completar, a receita do tradicional molho para pizza.

- 2 colheres (sopa) de óleo
- 1 cebola pequena picada
- 5 tomates sem pele picadinhos
- Sal e pimenta a gosto
- 1 colher (sobremesa) de orégano
Prepare os tomates tirando a pele, picando e reserve.
Frite a cebola no óleo, coloque o sal e a pimenta.
Depois de bem murcha a cebola, junte os tomates, dê uma rápida mexida, tampe a panela para amolecer os tomates. Estando quase que totalmente amolecidos, junte o orégano, misture e deixe no fogo alguns minutos para secar um pouco mais, caso esteja muito líquido (depende do tomate).
Use depois de frio sobre a massa pré-assada e cubra com mussarela, cebola, azeitonas ou o que a sua criatividade permitir.

Para sugestões, críticas e temas para as
próximas colunas, escreva para: miocz@yahoo.com.br.
Maria Inês de Oliveira Chiarion Zecchini é professora de Educação Infantil nesta cidade e autora do livro “Redescobrindo – receitas da cozinha bragantina”. Faz parte da Associação dos Escritores de Bragança Paulista (Ases), foi membro fundadora da Academia Bragantina de Letras (ABL) de 2005 a 2008, e colunista do jornal Cidade de Bragança de 2005 até 2011.
0 Comentários