Fabiano Pires é um dos músicos mais conhecidos e consagrados no meio cultural bragantino. Multi-instrumen-tista, começou a carreira bem cedo. Ainda criança, já tocava profissionalmente. Hoje, antes mesmo dos 40, tem uma carreira consolidada dentro e fora da cidade natal.
E, mesmo quem não é do meio artístico, provavelmente já acompanhou alguma apresentação de Fabiano de perto, mesmo sem saber. Sambista, dos melhores, se apresenta desde que começou a tocar, em agremiações e grupos, como o atual “Zé da Gente”.
Com uma carreira prolífica e longínqua, o que se destaca é que a descoberta do talento e a vivência musical muito cedo não o acomodaram. A experiência nunca o impediu de se aperfeiçoar. Fez conservatórios e, ainda hoje, já reconhecido, faz duas pós-graduações na área musical, de Arranjo e Produção Fonográfica.
Fabiano conversou com o Jornal Em Dia, falou de sua trajetória e das alegrias e dificuldades de escolher – ou ser escolhido – pela carreira musical.

“Não sou de uma família de músicos, comecei jogando futebol. Fiquei por oito anos em times da cidade. Foi ali onde começou o vínculo, como quase todo jogador, de gostar de pagode e samba. Meu primeiro instrumento foi o tamborim. Comecei com percussão, em escola de samba. Minha primeira aparição tocando foi na bateria da Unidos do Lavapés, com nove anos. Então pedi um cavaquinho ao meu padrinho e, como o futebol não deu certo pois tive muitas lesões, me dediquei totalmente à música”, conta.
Tudo na carreira de Fabiano aconteceu muito cedo. Essa transição do esporte para a arte aconteceu entre os 13 e 15 anos. E, se criança ele já tocava profissionalmente, antes de se tornar um adulto, já era professor.
“Eu tocava em um grupo de pagode chamado Eloquência, sou da primeira formação. Foi quando eu tive a certeza de que eu queria ser um músico, viver da música. Na mesma época, recebi o convite para tocar em um grupo de chorinho, chamado Sanfo-nias. Depois disso, fui estudar em São Paulo, onde fiz dois conservatórios. Em seguida, veio o convite para dar aula, no Centro Musical Tassara. Ali fiquei mais de dez anos. Ensinei, mas aprendi bastante também”, relata.
Fabiano não se vê fazendo outra coisa. E reforça que, mesmo que não tenha vindo de uma família de artistas, o apoio dos pais foi fundamental. “Meu pai já me apoiava no futebol, ia aos treinos comigo. E na música não foi diferente. Uma das minhas forças para continuar veio dele. Minha mãe também, sempre está junto comigo, vai aos ensaios, está sempre por perto. A família é o alicerce total”, enfatiza.
A falta de entendimento sobre a carreira artística é real, e nem toda a família é como a de Fabiano. Mas ele, como diz de si próprio, é acessível e flexível. E, por isso, compartilha de seu conhecimento com quem está empenhado em aprender. “Ainda existe muito preconceito com quem trabalha com música. E também muitos dos que querem seguir na área acreditam que aprender até um certo ponto já está bom. Hoje a música e a tecnologia estão muito juntas. Você não pode esquecer da essência, do passado e de toda a história que a música tem, mas a tecnologia está muito presente. Eu tenho a preocupação de poder ajudar. Quem daria a oportunidade para você dar aula com 15 anos de idade? Eu tive isso. E consegui formar muitos alunos que hoje tocam junto comigo. Tenho muito essa facilidade e esse gosto de passar o conhecimento. Incentivo é algo que ainda falta muito, não só na área cultural, mas principalmente”, avalia.
E, para os jovens artistas que têm a oportunidade de aprender com Fabiano, certamente, não há curso que pague por isso “Quando você tem a vivência, eu acredito que consegue passar com mais credibilidade e com mais experiência também’”, analisa.

Além da carreira consolidada em Bragança, Fabiano toca no Carnaval paulistano desde de 2004. “Saí no Peruche, minha primeira escola em São Paulo, na ala de compositores. Eu já estudava chorinho com o Wagner do Cavaco. Comecei a frequentar para ver como funcionava, mas já com o objetivo de realizar o sonho de tocar no Carnaval dali. No ano seguinte, ele me ligou e me convidou para tocar. Eu fiquei até 2011, onde tive uma bagagem muito boa, cheguei a ser diretor musical”, relembra.
Fabiano ficou afastado do Carnaval por um período, por questões pessoais. Voltou em 2015, na Mocidade Alegre, mas se despedindo da escola que lhe abriu as portas com chave de ouro. “Eu voltei pro Carnaval ganhando um samba no Peruche, minha primeira composição, no Carnaval de São Paulo. Ganhamos três troféus de melhor samba enredo daquele ano”, diz.
Fabiano continua ativo no Carnaval paulistano, nos bastidores, por conta da pandemia. Mas, como ele explica, precisou “ralar” muito para chegar ali. Para estar na Mocidade, teve de passar por dois meses de testes. “As pessoas pensam que o Carnaval é muita bagunça. Eu sempre cito a gestão da Solange Cruz, que é a presidente, até como referência pessoal. A Mocidade é uma escola família, uma escola que preza pela organização. E eu valorizo muito estar no Carnaval de São Paulo, porque, para chegar ali, foi preciso muita luta”, lembra.
Para chegar à Mocidade, como Fabiano conta, foi preciso passar por muitas audições. Esse relato evidencia como a música popular é tão importante quanto a música erudita no Brasil. Assim como em uma orquestra tradicional, uma escola de samba como a Mocidade Alegre tem uma regência, o que faz dela também uma orquestra, mas com instrumentos distintos.
“Para entrar na bateria, é preciso passar por uma escolinha. E eles conseguem passar para o aluno a importância que ele tem ali. Isso vai fortalecendo nele a importância de estudar mais. É uma orquestra mesmo, a ala musical é muito sincada com os breques da bateria. A responsabilidade é dobrada, porque se você errar uma nota, o Anhembi inteiro vai ouvir. Nós temos partituras, temos maestro, saímos com metrômetro”, explica.
Apesar de sua extensa carreira, se engana quem acredita que Fabiano já chegou ao seu auge. Como ele diz, não se acomoda. E ainda há um percurso a percorrer. “Hoje, se eu sair da Mocidade, o próximo patamar é o Rio de Janeiro. Mas eu brinco, que se eu conseguir chegar ao Carnaval de lá, já posso pendurar o cavaco”, revela.
Ele até pode mesmo ter essa intenção, mas para quem respira música, é difícil acreditar que um dia a aposentadoria chegue. Como diz a famosa canção de Ataulfo Alves, “Sei que vou morrer não sei o dia [...] Sei que vou morrer, não sei a hora [...] Morre o homem fica a fama, quero morrer numa batucada de bamba, na cadência bonita do samba”.

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