“A crise da educação no Brasil não é uma crise, é um projeto”, já dizia o educador e político Darcy Ribeiro (1922-1997). E de fato ele tem razão!
Exemplos longínquos e históricos não faltam para ilustrar que há sim um projeto em curso de desmantelamento da educação pública no país, camuflado por reformas sintonizadas muito mais com os interesses do mercado – aqueles que lucram com a educação privada – do que pelos interesses de estudantes, professores e toda comunidade educacional.
A onda do momento são as matérias previstas a partir da Reforma do Novo Ensino Médio, aprovada pelo governo de Michel Temer (MDB) em 2017, com destaque para o “Projeto de Vida”, umas das disciplinas eletivas ofertadas.
Não é piada pronta, essa é uma das matérias previstas, a qual pode ser lecionada por qualquer professor, tanto aquele mais próximo dos estudantes, a fim de gerar um clima mais “descontraído” para pensar sobre a vida e o que se espera dela; quanto quem precisa completar a carga horária e não tem a menor ideia por onde começar!
Capacitações e qualquer forma de suporte são limitados ou inexistentes, o que delega ao professor “se virar” para tornar a aula atrativa e cumprir o que se espera da disciplina. É mais uma sobrecarga de trabalho para quem já está submerso em afazeres, em especial ignorando sua área de formação.
Não há amor que dê conta, ao lembrar da recente afirmação proferida pelo atual governador de São Paulo – Tarcísio Freitas (Republicanos) – no lançamento do programa Alfabetiza Juntos “A gente sabe que os professores não têm a melhor estrutura nem os melhores salários, mas eles têm muito amor”.
Não basta “só” amor!
Na grade do novo Ensino Médio para que caiba o “Projeto de Vida” e outras disciplinas – no mínimo questionáveis – matérias tradicionais foram cortadas ou reduzidas, o que eventualmente impacta na formação dos alunos, tanto por se tratar de conteúdos que serão cobrados no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem); quanto na formação enquanto cidadãos, que compreendem a nossa história a ponto de não sair por aí exaltando a Ditadura Militar ou batendo continência para pneus, como temos assistido!
Passa pela educação – que seja crítica, reflexiva e transformadora – a formação do sujeito, capaz de enfrentar o negacionismo à ciência, o fundamentalismo religioso e ser protagonista na construção de uma sociedade mais justa e igualitária.
O “Projeto de Vida” – previsto na Base Nacional Comum Curricular, documento que define o conteúdo e as habilidades que devem ser desenvolvidas pelas escolas – centra-se no indivíduo em si, explora o campo dos sonhos, desejos, felicidade, sem dúvidas dimensões fundamentais na condição humana, mas que poderiam auxiliar os estudantes de modo extracurricular, contando, entre outros, com a presença de assistentes sociais e psicólogos, profissionais previstos para atuarem nas escolas.
Do modo como se dá, parece coadunar muito mais com uma sociedade individualista, meritocrática, centrada em si, que parece esconder seus problemas e desigualdades e que reserva as melhores condições àqueles mais abastados, do que na soma de esforços em prol da construção de uma sociedade fraterna e solidária; desconsidera ainda a realidade de sobrevivência e precariedade vivenciada por milhares de estudantes, onde o acesso à educação é o meio – o único meio – de galgar qualquer possibilidade de transformação da condição vivida, aumentando ainda mais o foço entre classes sociais num país com graves problemas sociais.
Há muito a se falar dessa tal Reforma do Novo Ensino Médio, assunto que segue em aberto no âmbito do governo federal quanto a ajustes ou revogação. Cabe compreender o que está em jogo, mesmo porque o projeto de desmantela-mento da educação pública segue firme e não há amor que dê conta de impedi-lo!

Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo
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