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Olhar Social

Não eram só coisas...

As cenas dramáticas que têm sido veiculadas cotidianamente em razão da tragédia ocorrida no Rio Grande do Sul permitem dimensionar o tamanho da catástrofe anunciada.

Anunciada sim, já que o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), dias antes, havia alertado sobre o grande volume de chuvas que se concentrariam na região; antes disso, o estado já vinha sofrendo com desmatamento, flexibilização de leis ambientais e desinvestimento na área, o que deve ser apurado, identificando e punindo seus responsáveis.

Na tragédia, que aguardava os dias para acontecer, cidades inteiras foram atingidas!

Não foram só coisas que se perderam...

Quase tudo – ou tudo mesmo – foi perdido: a casa, os móveis, documentos, roupas, pessoas próximas, histórias e memórias de toda uma vida...

Tudo – ou quase tudo – debaixo d’água. Água que se avoluma com as lágrimas de quem perdeu o pouco do que tinha, fruto do trabalho pesado de cada dia, de quem deu um duro danado para ter alguma coisa na vida.

Bairros inteiros foram engolidos pela água, que em fúria parecia bradar o calor insuportável que sufoca seu fluxo natural, num completo desequilíbrio que está desestabilizando a atmosfera como um todo, face ao aquecimento global em curso, com recordes atrás de recordes de calor e de chuvas cada vez mais intensas.

Desastre nada natural, já que conta com a colaboração direta do homem “civilizado”, a partir da destruição e exploração desenfreada do meio ambiente e dos recursos naturais, o que está gerando, dentre outros, uma grande crise humanitária, destruindo vidas, histórias, sonhos, lembranças e memórias, produzindo os chamados “refugiados climáticos”.

Pessoas que, forçadamente, precisam deixar seus locais de origens para sobreviver, por vezes sem nenhuma condição de retorno, a exemplo do Rio Grande do Sul, e em outros tantos lugares, mundo afora.

Realidade apontada em recente relatório do Centro de Monitoramento de Deslocamentos Internos (IDMC), que identificou, só em 2023, 46,9 milhões de deslocamentos forçados em 151 países e territórios – dentre eles, o Brasil –, mais da metade deles, 26,4 milhões, em razão dos desastres ambientais, números que já superam os deslocamentos em razão das guerras. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), estima-se que haja mais de 20 milhões de refugiados climáticos em todo o mundo. Cenário que tende a aumentar à medida que as mudanças climáticas se intensificam.

A escassez de água, a diminuição da produtividade no campo, as altas temperaturas – geradoras de uma espécie de estresse térmico – o aumento do nível do mar, as tempestades intensas, torrenciais e cada vez mais corriqueiras estão entre as principais causas de refúgio.

Deixar tudo para trás e sair correndo do jeito que dá, por vezes só com a roupa do corpo, é uma realidade carregada de injustiças e desigualdades, a qual segue reproduzindo distintas condições, quer seja na vivência da tragédia em si, quer seja na condição concreta do seu enfrentamento, haja vista que, embora a crise climática atinja a sociedade como um todo, são os grupos e populações mais pobres e vulnerabilizados, as maiores vítimas e os que mais sofrem.

Realidade que escancara o racismo ambiental – termo cunhado pelo ativista afro-americano Benjamin Franklin Chavis Jr, que chegou a atuar como secretário de Martin Luther King Jr. – no qual as populações pobres e periféricas, em grande parte composta grupos étnico-raciais historicamente marginalizados, são as maiores vítimas da degradação ambiental vivenciada.

Não eram só coisas que se perderam...

Muitos perderam tudo, perderam a vida, e todos nós perdemos um pouquinho a cada dia por ignorar e não responder a tempo a crise climática já instalada!

Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo

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