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Olhar Social

Não estamos em cima do muro!

É possível que quem viveu sua infância ao longo das décadas de setenta/oitenta se lembre do desenho animado “A Corrida Maluca”. Ao volante, em seus carros imponentes, os personagens corriam por várias estradas, repletas de perigos e muitos obstáculos, disputando o título de vencedor do enduro.

Todos os competidores encaravam o desafio de modo esportivo, enfrentando os empecilhos dentro das regras do jogo, exceto um deles – Dick Vigarista – que ficava o tempo todo inventando algo para prejudicar seus adversários e ganhar a corrida a todo custo!

No Brasil atual, foi dada a largada rumo ao pleito de 2022, os/as candidatos já estão em campanha, os debates já iniciaram e as propagandas eleitorais estão prestes a começar. Enquanto parte do jogo eleitoral, temos em nossas mãos o dever cívico e a responsabilidade ética e moral de acompanhar, conhecer e avaliar os participantes do pleito, uma tarefa impossível de terceirizar.        

Votar – bem como monitorar a corrida eleitoral e o mandato do/da parlamentar eleito – é um direito de todas as pessoas com mais de dezesseis anos, uma conquista histórica, fruto de muita luta daqueles que vieram antes de nós, num tempo em que o jogo político era um privilégio ligado à classe social, escolaridade, ao gênero e a posse de bens – vale lembrar que as mulheres só tiveram esse direito reconhecido em 1932, cuja efetivação de fato só ocorreu em 1946; e os analfabetos só puderam votar com a Constituição Federal de 1988.

Tempo ainda onde se reinava os chamados votos de cabresto, uma espécie de compra de votos, que se utilizava da própria máquina pública para tal, criando uma relação de fidelidade entre o eleitor e o candidato, num contexto de quase inexistência de autonomia e liberdade por parte do eleitorado. Realidade que insiste em ocorrer, ora de forma mais explicita – ainda que coibida por vários órgãos de controle –, ora de forma camuflada – como a implementação do recente Auxílio Brasil.

Abdicar desse direito é ignorar essa trajetória de luta; é autorizar que as outras pessoas decidam por nós; é ainda renunciar à possibilidade de contribuir com mudanças, em especial ao reconhecer nosso legado e cenário de injustiças, iniquidades e desigualdades – sociais, raciais, políticas e econômicas.

Em disputa, estão os rumos do nosso país. Um país que está adoecido, gerido por uma ideologia de ódio. Algo que só serve para fomentar ainda mais violência, numa realidade já violenta, produto direto de nossas desigualdades e exploração do sistema capitalista.

Não cabe, como fazia Dick Vigarista, tentar burlar as regras do jogo, tampouco criar um caos imaginário ao questionar nosso sistema eleitoral, supostamente impreciso, inauditável e falho, quando não há um fato sequer que prove essa assertiva, deslegitimando um modelo mundialmente reconhecido, em vigência há um quarto de século no país.

Nesta corrida, cabe o respeito e reconhecimento do Estado Democrático de Direito, aos poderes e instituições públicas do país. País esse que não é o quintal do presidente da presidente da República, desejando – ao que parece – imprimir um comportamento similar ao Rei da França Luís XIV (1638-1715): “O Estado sou eu”. Não! O Estado somos todas e todos nós!

As ações realizadas ou prometidas pelos candidatos devem ser, necessariamente, de cunho coletivo, não aos seus pares, amigos e familiares. Pautas em torno da família ou de cunho moral – algo muito explorado em 2018, como o famigerado “kit gay” e outras fake news – não podem desviar nossa atenção ao que é estrutural, como ações em torno de políticas públicas na perspectiva do direito e da cidadania.

A largada já foi dada, a corrida está em curso. Não ficaremos, como cantou Cazuza, apáticos ao pleito: “Pois aquele garoto que ia mudar o mundo; mudar o mundo; agora assiste a tudo em cima do muro, em cima do muro”. Não estamos em cima do muro!

Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo.

 

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