No dia 30 de março, conversando pelo WhatsApp com uma amiga brasileira, fui surpreendido quando ela, ao despedir-se, desejou-me uma “Feliz Páscoa”. Confesso que ignorava completamente que no Brasil (e em outros países católicos), estávamos na Semana Santa.
E, tomando consciência de que Semana Santa significava também época de “abstinência de carne”, levei um susto ainda maior. Pois lembrei-me de que, na sexta-feira anterior, eu havia saboreado um magnífico arroz com molho de carne, preparado pela minha esposa. E sem remorso, diga-se de passagem. E, antes de que apedrejem o herege que agora vos escreve, quero deixar claro a respeito de o porquê de não ter qualquer remorso por mais um pecado da “gula” – dessa vez quebrando os mandamentos de uma celebração religiosa. Na verdade, não tive remorsos por duas razões. Primeiramente porque não se deve ter arrependimento de nada que traga satisfação: e o molho de carne estava mesmo estupendo! E, segundo, porque, se houve pecado, este foi cometido de modo inconsciente. Afinal, aqui no Japão, o calendário tem outras datas importantes que, exceção feita ao Natal, nada tem a ver com o Cristianismo. De modo que, não sendo datas nada especiais por aqui, as celebrações católicas não passam de “um dia como outro qualquer” no calendário japonês. E até mesmo o Natal é tratado como um dia a mais – ou seja, expediente normal de trabalho. E, se este por acaso ocorre em um fim de semana, quem celebra são os namorados – uma vez que, no Japão, “Noite Feliz” é data para encontros de casais.
Dito isto, é fato que todos os anos só tomo conhecimento da Semana Santa (ou de outros feriados brasileiros) quando falo com familiares e amigos residentes no Brasil. E, sim, na sexta-feira da Paixão, como carne, limpo a casa, penteio os cabelos – um “kit pecado”, enfim, que deixaria as beatas de Roque Santeiro verdadeiramente horrorizadas. Sorry, dona Pombinha!
Ainda que, neste ano, eu tenha ficado com a consciência mais aliviada ao ler que o Papa Francisco havia liberado os católicos para comerem carne na Sexta-feira Santa dizendo que “o sacrifício não está no estômago, mas no coração”. Mas logo depois descobri que tudo não passava de uma notícia falsa.
Uma pena. Eu ia até terminar esta crônica chamado o Santo Padre de “batuta”: o progressista, enfim, de que precisávamos no trono do Vaticano.
Quer saber? Cansei de ser católico. Vou virar budista.
Desde que, claro, eu não tenha de beijar o Dalai Lama...
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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, no Japão, na Espanha e em Portugal. Em 2022, teve dois livros premiados no Concurso Internacional da União Brasileira de Escritores-RJ, recebendo o Prêmio João do Rio (para “Livro de Crônicas”) e o Prêmio Luiz Otávio (para “Livro de Trovas”). Foi um dos cronistas escolhidos para compor o livro didático “Se Liga na Língua - 8º Ano” da Editora Moderna (2024). É sócio-correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).
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