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Crônicas de um Sol Nascente

NÃO PUDE DIZER ADEUS!

Em fevereiro deste ano, soube do falecimento de um tio em Manaus - alguém que exerceu grande influência tanto em meu crescimento pessoal quanto profissional. Tio Américo e eu, é verdade, tivemos - como ocorre entre todos aqueles que se gostam e respeitam-se mutuamente - momentos de atrito: principalmente em meus tempos de rebeldia adolescente, e, sobretudo, por motivos políticos. Ele, vereador por um partido essencialmente conservador (o PMDB); e eu, membro da União da Juventude Socialista (começando inclusive a participar de reuniões no PCdoB): um adolescente cheio de espinhas e de raiva que, como uma metralhadora verbal, citava Marx e Lenin a toda hora.

Entre nós, portanto, o choque de gerações e de visões foi inevitável e causa de conflitos sucessivos: a ponto de eu querer evitar até as reuniões de família para não ter de encontrar-me com o meu tio - numa reprovável demonstração de imaturidade, hoje sei. Tio Américo, por outro lado, mesmo após as mais acaloradas discussões, jamais desistiu de mim: tentando mostrar-me, por exemplo, a importância da pluralidade de ideias. Ouso dizer até que foi com ele que tive a minha primeira grande aula de política: matéria que seria a base de meu mestrado no Japão alguns anos depois. Aliás, foram tantas coisas que aprendi com o meu tio, para além da política, que uma crônica não seria o suficiente para relatar. Limito-me, então, a expressar a saudade e a dor de um sobrinho que não pôde vê-lo em seus últimos dias de vida.

Escrevo hoje a respeito de tio Américo porque, claro, trata-se da perda mais recente de um ente querido. Mas gostaria de estender essa homenagem a todos os familiares e amigos que faleceram no Brasil, e dos quais, residindo no Japão, não tive a oportunidade de despedir-me: como ocorreu em relação a minha avó materna (a quem eu adorava), em 2009. Perdas que me foram extremamente dolorosas, principalmente pelo fato de eu residir tão distante - sem ter, portanto, a chance de dizer adeus.

E, se a distância geográfica já é causa de uma dor dilacerante quando perdemos alguém, fico imaginando o verdadeiro inferno que é vivenciar a seguinte situação, cada vez mais comum em tempos de pandemia: a de, estando na mesma cidade, não poder despedir-se de seus mortos. Assisti, por exemplo, há alguns dias, pela tevê, a uma cena que me cortou o coração: a de uma viúva, na Espanha, chorando, à porta de casa, enquanto o corpo do marido era conduzido pelos agentes funerários. Isso porque, como se sabe, funerais estão proibidos como parte de leis e medidas de emergência em várias partes do mundo, para que o novo coronavírus não se propague (medidas necessárias que, aliás, alguns governantes, irresponsavelmente, têm se recusado a tomar).

Como no caso da viúva espanhola, muitas outras famílias não estão podendo despedir-se dos entes queridos vitimados pelo vírus. Mais um triste dado, enfim, dessa pandemia, que multiplica lágrimas enquanto elimina abraços. Até quando? - pergunto-me. Até quando persistirá o pesadelo?

EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residindo no Japão desde 2001. Premiado em mais de trezentos concursos literários no Brasil, na Espanha e em Portugal, é autor dos livros “Sonhador Sim Senhor!” (2000), “Clandestinos” (2011), “Em Curto Espaço” (2012), “No mínimo, o Infinito” (2013), “Filho da Floresta” (2015), “Trovas escritas no tronco de um bambu” (2018) e “Gotas frias de suor” (2018). É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (ASES). Em novembro de 2019, foi o vencedor, na Espanha, do 13º Concurso de Microcontos do Festival de Cine Terror de Molins.

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