Fotos: Arquivo Pessoal / Mariana Magalhães
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Não ser racista não é suficiente É preciso ser antirracista

20 de novembro de 1695 foi o dia da morte de Zumbi dos Palmares, maior líder da resistência africana do país no contexto da escravização que durou mais de três séculos no Brasil. Quando Zumbi foi capturado e morto, a escravidão já tinha cerca de um século e meio. Até que a abolição fosse instituída, em 1.888, já havia se passado quase outros dois séculos.

Mas foi só com o fim da ditadura militar e com a promulgação da Constituição Federal de 1988, exatos 100 anos após a abolição, que os movimentos sociais começaram a tomar força e ter espaço para participar das discussões políticas no país, entre eles, o movimento negro. No entanto, foi apenas há dez anos, em 2011, que foi criado o Dia Nacional da Consciência Negra, por meio da Lei nº 12.519. Porém, a lei não transformou a data em feriado nacional, como é o caso de 21 de abril, Dia de Tiradentes, outro símbolo de luta e resistência no país. Dessa forma, são os governos estaduais e municipais que devem optar por ser feriado ou não.

Por mais que a data já esteja sendo melhor entendida e respeitada, ainda há quem pergunte o porquê de não haver uma para celebrar a “consciência humana”. Supõe-se que, se ela existisse, de fato, a taxa de homicídios de negros no país não seria mais do que o dobro da de brancos, de acordo com o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). Ou que os negros não seriam quase 40% mais vulneráveis à pobreza e exclusão social, também de acordo com o Ipea. Ou, ainda, que o salário de negros não fosse quase 20% menor do que de brancos, da mesma origem social, de acordo com dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Não há como os resquícios de mais de 300 anos de escravidão serem apagados em apenas 133 anos de abolição, que foi assinada, mas que não foi pensada de forma a garantir a inclusão social e promover a reparação histórica aos descendentes dos escravizados. 

Para debater sobre o assunto que a data propõe, o Jornal Em Dia conversou com o servidor público e cientista social Leonardo Borges da Cruz, de 43 anos, com a psicóloga Aline Gomes da Silva Pimentel, de 31 anos, e com a jornalista Paula Martins, de 22 anos – pessoas de três gerações diferentes, mas com percepções similares sobre a questão racial no Brasil. 

Leonardo - Foto Arquivo Pessoal

A IMPORTÂNCIA DO DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA

“Eu sou um ser humano que é percebido como negro (preto) em muitos momentos do meu dia a dia. Então, acordar em qualquer dia do ano e lembrar que, no fim do século passado, teve todo um movimento liderado por um homem preto como eu chamado Oliveira Silveira, que estabeleceu uma data para que pessoas como nós dois pudessem ser lembradas pelos feitos positivos e ativos (não apenas os cativos e os caricatos) tem um significado de alento. Ainda é uma data cuja simbologia é pouco compreendida por pessoas alheias ao antirracismo e elas são muitas. Sabemos que o 13 de maio foi importante, mas pequeno diante do que podemos construir. E pessoas como eu estão construindo um mundo melhor para todas as pessoas, independente de seu pertencimento racial”, fala Leonardo. 

Para Aline, a data “simboliza a memória e história do povo negro, carregadas de resistência, luta e conquistas. O marco desta data nos convida a refletir sobre nossa história e sobre as necessidades daqui em diante. Não deveríamos concentrar ações apenas nesse momento, mas sim construir práticas antirracistas de forma continuada”, analisa. 

Para Paula, a data é “para celebrarmos a nossa existência que, durante tanto tempo, sofreu inúmeras tentativas de apagamento. É também para relembrar as lutas de nossos ancestrais”. 

SER NEGRO NO BRASIL EM 2021

Aline considera que “ser uma pessoa negra no Brasil significa ser resistência para se posicionar, acessar direitos, trabalhar, manter-se saudável, e em muitos contextos, inclusive para sobreviver. Mas, também, ter orgulho de ser resistência, de lutar por sua representa-tividade. E sonhar para que um dia toda essa luta não se faça necessária e se possa apenas ser”, diz. 

Para Paula, “é perceber que, mesmo com tantos avanços, pessoas racializa-das não ocupam tantos locais de poder quanto deveriam; é ver que todo dia a violência policial mata principalmente pessoas pretas; é presenciar situações racistas que são tidas como ‘piadas’. Mas, ao mesmo tempo, me anima ver que, cada vez mais, pessoas pretas estão assumindo sua verdadeira identidade, sem querer se branquear. Há, cada vez menos, pessoas alisando os cabelos e cada vez mais artistas pretos de diversas linguagens tendo um papel importante de representatividade”, avalia. 

“Muita gente diz que ser negro no Brasil é ‘matar um leão por dia’. E isso é muito verdadeiro e pouco muda se você é rico ou pobre. Hoje falamos muito sobre os negros conservadores, algo que seria impensável se de fato o ser humano fosse predominantemente racional. São pessoas que, por mais que tentem, não conseguem ser antirracistas porque, o que elas querem, é deixar as coisas como estão. No entanto, parte do antirracismo assumido por nós é capitalista, consumista e, ainda assim, representa ganhos à população negra. Ser negro no Brasil em 2021 é pensar numa ascensão social que rejeite e ultrapasse as perspectivas liberais e construa um verdadeiro pacto nacional em que a equidade seja real e pra todo mundo”, reflete Leonardo. 

Aline - Foto Arquivo Pessoal

 

MITO DA DEMOCRACIA RACIAL

Durante muito tempo, criou-se, no imaginário popular, a ideia de que se vive uma democracia racial no Brasil, fato que, com a ascensão dos movimentos sociais e do empoderamento do povo preto, foi sendo, aos poucos, questionado e desmentido. “O Brasil, de forma geral, tem dificuldade para admitir seu caráter racista. Por muito tempo, se acreditou e se afirmou que no Brasil já não existia racismo devido a sermos miscigenados, e que as raças conviviam de forma harmônica, ignorando os índices de violência e genocídio do povo negro, desigualdades de emprego, renda, moradia, escolarização, etc. Migramos do discurso de que o racismo não existe, para o discurso do ‘mi mi mi’.

Quando apontadas situações de racismo, buscam deslegitimá-las, desacreditá-las. Isso é uma atualização do racismo velado que vivemos: o país do mito da democracia racial, que mascara o racismo que está no cerne da construção do nosso povo. Houve mudanças, na legislação, institucionais, mas que ainda não garantem o rompimento dessas crenças”, diz Aline. 

“No Brasil, a galera pensa que racismo é papo furado com argumentos como ‘mas aqui, pessoas negras e brancas se casam’, coisas assim. Mas não percebem que isso não significa muito. O tempo todo chamam as pessoas negras de vitimistas, como se o racismo não existisse aqui”, concorda Paula. 

“É preciso lembrar que a ideia de que somos um povo, uma nação é altamente enganosa. Nação é uma categoria nativa e analítica europeia e sua afirmação implica, dentre outras coisas, um grande apagamento de identidades diversas. Tanto governo, quanto brasileiros de modo geral, lidam com isso de modo enganoso. Em países de dimensões continentais como o Brasil e com perfil de apagar as diferenças, ainda temos um racismo que insiste em apagar os modos negros de ser, de pensar, de existir, de produzir cultura, de produzir saber.

E isso caracteriza o racismo brasileiro, também chamado de racismo assimilacionista. Mas existe uma voz que esteve silenciada por cinco séculos e aparece como uma nota fora do tom; bonita, mas que provoca mudanças de significados estruturais. Essa voz é a da população negra. E hoje, mais do que indivíduos, ela tem uma rede de intelectuais negros que tomou posse de saberes acadêmicos brancos e eurocentrados e, por isso, não pode ser ignorada sob o risco de jogarmos as ciências no ralo em favor das opiniões de amadores. Ou seja, essa intelectualidade negra (e também a feminista e a de não-heterossexuais) se impõe pela posse do que chamávamos de mais racional e moderno”, pondera Leonardo. 

Paula - Foto Binho Miranda

 

COTAS RACIAIS

O questionamento do porquê de um dia para a Consciência Negra quase sempre vem agregado ao das cotas raciais, seguido do outro mito preso no imaginário popular, o da merito-cracia, aquela ilusão de que basta se esforçar bastante para ascender socialmente, como se todas as pessoas tivessem as mesmas oportunidades. O fato é que as ações afirmativas propostas pelas cotas deram certo e começam a fazer valer a reparação histórica tão necessária ao país.

Aline conta que o sistema de cotas foi fundamental em sua trajetória: “eu mesma me considero representante delas. Estudei psicologia e mestrado como bolsista integral, e sou funcionária pública pelas vagas de cotas raciais, fatos que foram essenciais e estrutu-rantes na minha vida. No entanto, as oportunidades ainda não chegam a todos de forma equânime. As cotas raciais serão necessárias até que todos os setores possuam representatividade compatível com o percentual da população negra brasileira, o que ainda estamos longe de presenciar”. 

“Eu sou professor da rede federal e lá as cotas raciais mostram um aumento significativo de alunos negros nos cursos. É importantíssimo desracializar elites e isso começa a tomar forma quando uma parte desses alunos percebe que os casos de racismo que cada um deles vivenciou são muito semelhantes aos dos novos colegas negros. É então que começam a recuperar a auto-estima e até mesmo é aí que muitos se descobrem negros, afinal de contas, enxergam que o problema não é mais individual, mas coletivo. É comum que se organizem em núcleos de estudos de pesquisas, de ensino e de extensão voltados à compreensão profunda do racismo e suas estratégias de superação. A qualidade das instituições de ensino que adotaram cotas e outras ações afirmativas tem melhorado e isso é algo que nós, especialistas em hierarquias raciais, sabíamos desde que estudamos o tema”, afirma Leonardo. 

“Inclusive, as cotas raciais também foram importantes para que pessoas pretas de pele mais clara se identificassem como negros, coisa que não acontece tão rápido com elas quando se vive em um país como o nosso. Aqui, você é moreno, pardo, qualquer coisa, menos negro, por causa da coisa negativa que colocaram em volta do termo”, completa Paula. 

PRIVILÉGIO BRANCO

“Pensar a atuação de pessoas brancas na diminuição da desigualdade racial é de extrema importância, no entanto, é necessário realizarmos discussões aprofun-dadas sobre esse ponto. Discutir o papel da branquitude na luta contra a discriminação racial no país implica abordar aspectos difíceis de lidar, porém, necessários. Convoca a refletir sobre a posição de uma pessoa branca no mundo, nesse caso, posição de privilégios, e escolher romper com eles. Ou seja, não basta afirmar ser favorável à luta contra o racismo apenas, mas sim, se posicionar de forma contrária a situações de racismo, apoiar a comunidade negra em diversos contextos, defender as lutas por políticas que movimentem a estrutura social, refletir de forma crítica sobre o próprio racismo, não se isentar desse processo”, declara Aline. 

“Muito se fala sobre usar os próprios privilégios para ‘dar voz’ às pessoas negras mas, para mim, não é sobre dar voz. Nós temos voz e não precisamos de nenhum branco para isso porque também lutamos muitos anos para conseguir nossos direitos. O que quero dizer é que, se você é branco, um dos seus papéis na luta antirracista é fazer com que mais pessoas pretas sejam parte do seu cotidiano e em espaços que, geralmente, não são feitos para corpos como os nossos, mas que iremos, sim, ocupar”, acrescenta Paula. 

“Posso dizer que essa branquitude consiste em um fenômeno social de privilégios e autoestima equivocada por parte da população branca e em detrimento dos demais grupos raciais. O que seria de um neonazista brasileiro em uma célula da Ku Klux Kan? Ele seria exposto ao ridículo e a riscos que ele imagina que são apropriados a negros. Isso prova duas coisas: raça só existe como categoria cultural, posto que é por meio dela que percebemos diferenças reais e ilusórias sobre nós e  que o branco no Brasil só é percebido como branco aqui e nunca lá fora. É somente aqui que brasileiros brancos gozam de privilégios raciais. Sensibilizar-se frente ao racismo e seus efeitos é um passo primordial, o que requer um profundo empenho e nenhuma mediocridade. A boa notícia é que existem brancos fazendo isso, principalmente os que se percebem em situações de vexação sexista ou homofóbica”,

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