Se me perguntarem a respeito da cidade de meus sonhos, respondo sem vacilar: Yokohama. Nela, há tudo do que mais gosto: está perto do mar; é segura e é suficientemente internacional (possuindo uma das maiores concentrações de estrangeiros no Japão). Isso sem mencionar a sua importância histórica para o país – foi por meio do porto de Yokohama que a Terra do Sol Nascente se abriu oficialmente para o mundo, após a assinatura, em 1854, do Tratado de Kanagawa com os Estados Unidos do Comandante Perry.
Aliás, minha família e eu tivemos a oportunidade de visitar, em nossa mais recente viagem à cidade, vários locais importantes para a história japonesa (e, por que não dizer, mundial). Começando pelo hotel em que nos hospedamos por uma noite – o “New Grand”. Fundado em 1927, esse, que é um dos mais tradicionais edifícios de Yokohama, hospedou, em 1945, ninguém menos que o General Douglas MacArthur, Comandante Supremo das Potências Aliadas (leia-se “invasor”), durante a ocupação americana ao país. E vale ressaltar que as marcas da ocupação ianque permanecem ainda muito fortes em cada pedaço da cidade. Por exemplo, bem em frente ao hotel, há um famoso parque, o Yamashita Koen, que possui um monumento em homenagem a San Diego, cidade californiana considerada “irmã” de Yokohama.
Mas, sim, voltando ao New Grand e sua história. O referido hotel não recepcionou somente militares famosos, vale frisar. Outros célebres nomes também deram o ar de sua graça, sendo um dos mais destacados ele, o genial Charlie Chaplin. E, falando no eterno Carlitos, tivemos, ainda, nessa viagem a Yokohama, a oportunidade de visitar o navio que o trouxe ao Japão. O Hikawa Maru, aliás, merece aqui um registro especial. Hoje transformado em um museu, o navio representava todo o esplendor da Revolução Industrial do início do século XX, que gerou gigantes da construção naval como foi o caso do Titanic. E, sendo eu filho de um marinheiro, não poderia deixar de levar o Endi para um passeio pela monumental embarcação. E, de fato, valeu a pena, pois cada detalhe do navio é verdadeiramente uma viagem pelo túnel do tempo, dando-nos uma ideia precisa do que era a sociedade na época. Por exemplo, tal qual o Titanic, o Hikawa Maru também possuía a divisão em primeira e terceira classes; o que levou minha esposa a fazer um chiste quando passamos por quartos mais simples: “Aqui fica o Jack. Mais em cima, a Rose”. E, no compartimento da turma dos ricaços, lá estava o quarto (ou cabine) do “vagabundo” Carlitos. De modo que, imaginando que um dos maiores nomes da história do Cinema havia dormido naqueles metros quadrados, eu, cinéfilo que sou, busquei logo o celular para tirar, com o meu filho, uma foto em frente ao famoso local. Mas quem disse que o pequeno deixou? Batendo o pé, ele quis sair de lá o mais rápido para ficar brincando com o timão do navio – mostrando assim a todo mundo quem era o capitão naquela joça...
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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, na Espanha e em Portugal, é autor de dez livros, sendo o mais recente Contos de um Brasil esquecido, lançado pela Editora Folheando (Pará), e finalista do Prêmio Uirapuru. É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).
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