Desde criança imaginava histórias e tecia críticas, nem sempre plausíveis. Enxergava o mundo sob uma ótica diferente. Mesmo na dor, encontrava alguma beleza. Mesmo na revolta, sempre um tanto de ternura. Escrevia poemas, porque era preciso e sem qualquer outra motivação. Passou a escrever crônicas, porque nosso tempo pedia registros um tanto quanto mais sensíveis do mal que permeava os dias e os homens.
Nunca soube ao certo o porquê das coisas, nem por que insistir em escrever sob céus desabando. Um mundo em ruínas não precisa de poesia. O caos consegue abrigar dentro de si algum afeto?
Enquanto escreve agora, se lembra de que hoje é celebrado o dia nacional do escritor. Mas lembra-se também de que há escritores morrendo em Gaza. Em Gaza, já não há mais lugar algum para a poesia. Gaza é só destruição. Enquanto escreve, milhões de palestinos estão sendo dizimados, conduzidos para o abate, feito bichos desnorteados. As orientações que lhes são dadas os conduzem para a morte.
Quantos daqueles pequenos ainda se tornariam escritores? Quantos dedicariam suas vidas, ceifadas por esse genocídio pós-moderno, a escrever histórias que encantassem o mundo, ou denunciassem as injustiças? Não há mais beleza em Gaza. Em pouco tempo, não haverá mais crianças em Gaza.
E ela pensa, enquanto digita essas palavras: Como posso escrever em um mundo que mata suas crianças e seus sonhos? O que fizemos com nossa humanidade?
De que nos servem as siglas todas, as convenções todas, todos os partidos e todas as crenças se eles não conseguem evitar o assassinato de milhões de seres humanos, nossos irmãos?
De que me serve a escrita, afinal, nesse dia do escritor?
Mas quando me lembro das palavras do escritor Atef Abu Saif, em seu livro “Quero estar acordado quando morrer – Diário do genocídio em Gaza”, entendo, mais uma vez, o porquê da escrita, resgato dentro de mim alguma singela esperança.
Um homem capaz de registrar, dia após dia, a morte dos seus, com a dignidade que só o enfrentamento é capaz de produzir, é absolutamente necessário. Sua escrita é, ao mesmo tempo que um lamento racional, um grito estrondoso e necessário a denunciar os crimes cometidos pelo Estado de Israel. Tudo o que vemos na TV, e nos comove de alguma maneira, não é nem um décimo do que está acontecendo em Gaza, e por isso, quando terminei a leitura do livro, simplesmente não havia lugar para ele em minha estante. Não tinha forças nem vontade para colocá-lo lá. Um livro como o de Atef não cabe em nenhuma estante. Devia ser lido na ONU, devia ser uma carta-denúncia e que ela fosse ouvida pelos senhores da guerra, e que alguém os parasse.
No dia do escritor, celebro a força de Atef Abu Saif e do povo palestino. Celebro a escrita sim, mas como uma arma, não tão eficaz quanto os mísseis ou drones israelenses, mas absolutamente válida e necessária para forjar a esperança nos corações daqueles que virão depois de nós.
Escrever para denunciar, escrever para que não seja esquecido, escrever para imortalizar na História todo nosso ódio, a fim de não repeti-lo.
Enquanto escrevo esse texto, meus irmãos palestinos morrem. Feliz dia do escritor!
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