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Crônicas de um Sol Nascente

No templo da raposa

No primeiro dia do ano, os japoneses costumam visitar um templo dedicado a um aspecto da vida: por exemplo, para ter sucesso nos estudos, para conseguir um trabalho, ou mesmo para ter filhos. Pois, sim, o xintoísmo tem um deus específico para cada pedido (o que se assemelha em muito aos santos do Catolicismo).

Em 2023, nossa família visitou um templo dedicado ao deus Inari, divindade em forma de raposa e responsável pela agricultura – o Hanazono Inari-jinja, localizado no Parque Ueno, famoso ponto turístico de Tóquio. Não foi intencional, vale frisar: levamos o nosso filho para cortar o cabelo e, no caminho de volta, o referido templo chamou nossa atenção, especialmente pela curiosa arquitetura. Explico: o templo possui vários portais vermelhos em sequência, os quais, vistos de longe, causam-nos a impressão de que um portal está “dentro do outro” – no estilo “matrioska”, aquela boneca russa que contém dentro de si cópias menores, que são reveladas aos poucos. Enfim, um visual diferente se comparado a outros templos locais.

Quem o construiu não sabemos exatamente. Nem mesmo o ano de sua edificação é conhecido. Calcula-se que foi erguido por volta do século XVII. Diz-se que, em 1654, um monge de nome Kôkai teve uma visão (ou chamado) de que deveria “reativar” um templo em Ueno que não estava sendo usado. Outros falam que a construção na verdade ocorreu antes, entre 1623 e 1651, sob as ordens do Shogun Tokugawa Iemitsu (o terceiro da linhagem “Tokugawa”, poderosa família que dominou o Japão por quase três séculos). Quem quer que o tenha erguido, o fato é que o Hanazono Inari-jinja é uma pequena pérola da arquitetura japonesa: impossível, portanto, de não ser notado por quem passa pelo Parque Ueno.

E foi assim que, fascinados e curiosos, adentramos o templo, pedindo licença a Inari para orar não pela agricultura, mas sim por nossa saúde... e também, claro, pela saúde do mundo. Pois, afinal de contas, estamos agora vivendo uma nova variante da famigerada Covid-19, desta vez, um tal de “XBB.1.5”, que fez até com que a China entrasse em um novo “confinamento”, gerando, assim, mais um “efeito dominó” da doença – isso porque muitos países, para se precaver, começaram também a barrar turistas chineses... Ou seja, para resumir: o medo voltou a reinar no planeta.

Não sei quando ou mesmo se um dia esse inferno iniciado em 2019 terá o seu final. Mas o fato é que, gostemos ou não, temos de nos proteger de todas as formas. Vacina, vacina... e mais vacina. As “agulhadas” impedem o contágio? Claro que não. Mas amenizam e muito. E falo isso por experiência própria, pois, em meados de dezembro de 2022, também fui infectado pelo vírus. E, se não tive problemas mais graves, foi porque já havia tomado três doses da vacina.

Aliás, depois do susto, certamente vou tomar a quarta. Para poder continuar, mais tranquilo, passeando e apreciando as belezas do Japão, como é o caso do Hanazono Inari-jinja, acima referido. E, claro, nos passeios... sempre com máscara! Pois, afinal de contas, nem os deuses toleram os “vacilões”.

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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, no Japão, na Espanha e em Portugal. Em 2022, teve dois livros premiados no Concurso Internacional da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro, recebendo o Prêmio João do Rio (para “Livro de Crônicas”) e o Prêmio Luiz Otávio (para “Livro de Trovas”). É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).

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