Por Yasmin Godoy
“E há tempos nem os santos têm ao certo a medida da maldade/ E há tempos são os jovens que adoecem/ E há tempos que o encanto está ausente...” cantava a banda roqueira Legião Urbana no final dos anos 80. Quase quarenta anos depois, a canção segue atemporal e, infelizmente, ilustra casos bárbaros como o do cãozinho Orelha, que chocou o Brasil nesta semana.
Sem adentrar nos detalhes – porque eles são sórdidos demais – o que se sabe é que um grupo de adolescentes teria espancado brutalmente o animal comunitário que vivia na Praia Brava, em Florianópolis, e acabou tendo de ser submetido à eutanásia. O motivo? Aparentemente, pura diversão. Sem entrarmos nos méritos jurídicos, pouco se avançou nas investigações até o momento e sabe-se que os envolvidos pertencem a famílias nobres – e dois deles teriam viajado para a Disney, nos EUA, diante da repercussão do caso.
Nas redes sociais, comoção absoluta. Todos os lados políticos pareceram, depois de tanto tempo, finalmente falar a mesma língua: a da compaixão e da empatia. Sobre a justiça, ainda não saberemos se a dos homens será capaz de punir os infratores e oferecer o mínimo de alívio a todos que amam os animais ou... simplesmente àqueles que ainda guardam um resto de humanidade dentro de si.
Dói saber, principalmente, que tal ato foi cometido por jovens... sim, eles a quem tanto se credita o nosso futuro. Eles que poderiam estar fazendo tantas coisas em benefício da sociedade e de um mundo melhor – sobretudo com as milhares de oportunidades que têm à escolha – mas infelizmente deixaram falar mais alto seu lado sombrio, imoral e cruel.
Sabe-se que relação entre a agressão a animais e outras formas de agressão interpessoal é amplamente documentada por estudos de psicologia, criminologia e sociologia, sendo comumente referida como a “Teoria do Elo” (ou The Link, em inglês). Ela estabelece que a crueldade contra animais raramente é um ato isolado, funcionando frequentemente como um precursor, indicador ou coocorrente de violência doméstica, abuso infantil, abuso de idosos e outras condutas antissociais.
Hoje, foi o cãozinho Orelha, que morreu ferido, agonizando e sem a possibilidade de se defender, só para satisfazer o sadismo sujo e o ego torpe de quem deveria protegê-lo. Se eles serão punidos? Não sabemos. Mas a vida, aquela que foi violentamente ceifada, não voltará. Quem se importa? Há quem diga que “é apenas um cachorro”. Mas amanhã poderá ser qualquer um de nós.
Sim, é preciso aumentar o rigor das leis para casos como esse; é preciso investir em educação ambiental nas escolas; tanta coisa pode e precisa ser feita..., mas talvez a mais difícil seja mudar a dureza de alguns corações e a frieza de algumas almas que não são capazes de ver nada além de seu próprio reflexo. E aqueles valores – aqueles, que se ensinam de berço; que não têm preço e nem se encontram para comprar nos shoppings de luxo que essa gente frequenta – só eles são capazes de transformar a nossa natureza mesquinha.
Neste momento, vale a reflexão: que tipo de educação estamos dando às nossas crianças e jovens? Que tipo de exemplos eles têm em casa? Estamos ensinando-lhes bons princípios ou somente que o dinheiro tudo compra – até a impunidade? Será que realmente ter é melhor que ser e uma viagem à Disney faz esquecer tudo, até a maior das crueldades?
Não há palavras para expressar a dor, a indignação e a angústia que sentimos cada vez que lemos sobre essa barbárie. Não dá para imaginar também o tamanho da dor e do desamparo que sentiu esse cãozinho, tão querido pelos seus – mas agora ele finalmente pode descansar longe de tanta maldade e desamor.
Esperamos que algo muito sério seja feito para minimizar toda essa repulsa que sentimos; e que quem sabe esse horror sirva ao menos para abrir precedentes para novas leis de proteção animal e para punições mais severas a quem é capaz de cometer tamanha covardia – independentemente de seu sobrenome ou status social.
Querido Orelha, nós te ouvimos. Saiba que do lado de cá, estamos todos enojados e empenhados em transformar a sua dor em luta. Sim, acredite: o bem ainda é maioria.
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