O adestramento como solução

Por Paulo Botelho

Alto, magro e elegante, com aparência de uns 35 anos; vestia um terno azul-marinho de corte em alfaiate, moda “sem gravata”. Ao estender-me a mão para cumprimentar, mal apertou; observei possuir uma mão delicada, macia, quase feminina, unhas bem tratadas.

Principal dirigente daquela unidade hospitalar, convidou-me para ministrar palestras sequenciais de treinamento, direcionadas ao pessoal de enfermagem. “Precisamos adestrar toda a enfermagem!”, disse com determinação.

Quando pedi para entrevistar esse pessoal, concordou a contragosto. E constatei a existência de relatos de agressão: uma enfermeira contou que num certo dia atendeu a uma senhora com dores abdominais. “O filho dela me deu um tapa no rosto porque não atendemos de imediato!”, contou.

Isso demonstra a absurda intolerância em que se confunde grosseria com cidadania. Demonstra, sobretudo, que um homem que bate numa mulher não passa de um covarde. Situações assim de violência contribuem para deslocar a atividade de atendimento em saúde para situação de alto risco.

Paralelamente, cresce nesse segmento a quantidade de cursos e palestras de má qualidade: espécie de calmante que tem princípio ativo e posologia variada; prescreve conteúdo pirotécnico e de efeito placebo.

Ao terminar minha reunião com a enfermagem, fui até a sala do dirigente. Disse-lhe que iria propor outro enfoque ao invés de palestras de adestramento como queria. Ele não concordou. Sequer me estendeu de novo aquela mão bem tratada ao despedir.

Cavalos são adestrados porque só sentem; seres humanos não podem ser adestrados porque pensam e, sobretudo, sentem!

 

Paulo Augusto de Podestá Botelho é Consultor de Empresas e Escritor. www.paulobotelho.com.br

 

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