Uma das últimas músicas lançadas pelo rei do Baião, Luiz Gonzaga – em parceria com Aguinaldo Batista, em 1989 – parece ter sido escrita hoje. Para além do ritmo contagiante do forró, que nos convida ao remelexo, o “Xote Ecológico” denuncia a destruição do meio ambiente. “Não posso respirar, não posso mais nadar; a terra está morrendo, não dá mais pra plantar; e se plantar não nasce, se nascer não dá; até pinga da boa é difícil de encontrar”.
Poderiam ser apenas versos ao vento que rimam entre si, cantarolados no bamboleio do corpo, se não fossem narrativas concretas inspiradas numa dura realidade em que estamos – e não é de hoje – destruindo a natureza.
A “boiada que passa”, dia após dia – em menção à fatídica fala do então ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, em abril de 2020, em defesa da alteração das leis de proteção ambiental no momento em que a atenção se voltava para a pandemia, por vezes escamoteada por “cortinas de fumaça” – tem levado o país a retroceder, sobremaneira, em áreas estratégicas no campo dos direitos humanos, sociais e no enfrentamento e combate às desigualdades estruturais do país.
Além de sentir (literalmente) na pele o impacto das ações adotadas – seja pela precarização das condições de vida e trabalho de grande parte da população; da ausência, redução ou sucateamento de respostas estatais às necessidades sociais dos cidadãos, via serviços públicos; ou, ainda, pela adoção de “políticas de morte” contra a vida de pessoas (pobres, negras e periféricas) e do planeta – é possível certificar-se do real desmantelamento das políticas sociais, por meio do estudo realizado pelo Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), divulgado em 11 de abril.
O estudo “A Conta do Desmonte – Balanço Geral do Orçamento da União”, que analisou os gastos do governo federal nos três anos da atual gestão, mostra o desfinanciamento das políticas sociais – recursos sem os quais as ações não podem ou não conseguem ser realizadas. Política pública requer orçamento público e este é objeto em permanente disputa.
Se tomarmos por base a área ambiental – que engloba o Ministério do Meio Ambiente, Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), Jardim Botânico e o Fundo Nacional de Mudanças Climáticas (FNMC) – tivemos, em 2021, o menor investimento desde 2019. Desinvestimento que serve a interesses de grupos seletos, compromete o desenvolvimento de ações que preservem a fauna e a flora – condição necessária para sobrevivência das várias formas de vida – e contribui para uma morte silenciosa do Planeta Terra.
Talvez não tão silenciosa assim, já que a natureza está cada vez mais se rebelando contra nós, quer seja por sua fúria com tempestades catastróficas, parecendo querer acabar com tudo que lhe faz mal; ou pelas alterações climáticas, que levam ao aumento da temperatura, secas intensas, falta de água, derretimento de geleiras, destruição e desequilíbrio da biodiversidade.
Ailton Krenak – líder indígena, autor de “Ideias para adiar o fim do mundo” e “O amanhã não está à venda” – compreende a pandemia (que ainda vivemos) como reação do Planeta à sua exploração descontrolada e sem precedentes. Especialistas e cientistas são contundentes em afirmar que poderemos viver outras pandemias se continuarmos a destruir nossas florestas, como o desmatamento que a Amazônia vem sofrendo, o qual cresceu mais 56,6% no atual governo, segundo o Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia).
Caminhamos para o abismo se nada for feito para frear a “boiada que passa”. A pauta ambiental precisa, necessariamente, ser assumida como política de Estado, por gestores “terrivelmente” comprometidos com a área, algo que precisamos enfatizar neste ano, em que teremos o pleito, e cobrar durante o mandato. Essa luta também cabe aos jovens, que herdarão o Planeta. Tirar o título de eleitor até 5 de maio é um dever cívico para reivindicar um futuro que ainda é possível para si e seus descendentes. O desejo é dançar o forró de Gonzaga, cantarolando seus versos em rima sem grandes pretensões, porque vivemos em outra realidade, no contrário: “Cadê a flor que estava aqui? Poluição comeu; E o peixe que é do mar? Poluição comeu; E o verde onde é que está? Poluição comeu; Nem o Chico Mendes sobreviveu”.
Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo.
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