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SUB-VERSÃO

O CORPO DE CRISTO

O dia cinza era mesmo propício ao exercício por vezes doloroso da lembrança. A situação também, já que uma ameaça mortal a espreitava pelas frestas das portas e janelas, e fizera com que sua casa fosse, há quase três meses já, seu maior refúgio.

Nunca saía, já era idosa, e diziam, para essa faixa etária, o vírus poderia ser mortal. Além disso, sofria de comorbidades, o que só contribuía para aumentar-lhe o medo.

Lia, lia muito, sempre gostara de ler, e a TV estava se tornando quase mais mortal que a própria pandemia. Era uma enxurrada de desgraças, todas noticiadas com aquele sensacionalismo típico da maioria dos canais. Não que ela não desejasse manter-se informada, não era isso, mas havia chegado a um estágio em que muita informação, e tão negativa assim, afetava sua saúde mental, de forma que andava sentindo-se à beira de uma crise depressiva, e obviamente não queria passar por aquela experiência dolorosa mais uma vez.

O país, de forma geral, também ia muito mal, tão mal como não via há muito tempo. Tudo isso a afetava severamente. A solidão também, apesar de nunca admitir, sentia-se profundamente sozinha.

O tempo fluía num ritmo estranho e diferente. Onde estava aquele mundo de outrora, de quando era criança e não havia mal algum?

Enquanto essa pergunta latejava em sua cabeça, lembrou-se de ser menina e acompanhar sua mãe, católica fervorosa, às missas de domingo.

Lembrou-se do medo que as imagens do Cristo torturado costumavam causar-lhe, e de como não compreendia aquela violência toda. Por que aqueles homens o machucaram tanto, afinal?

Havia mesmo um propósito naquilo tudo? Ainda hoje, já idosa, essa pergunta volta e meia a assombrava. Ainda hoje, não compreendia a maldade no coração dos homens, que cada vez mais se manifestava através de práticas preconceituosas, ofensivas, absurdamente cruéis.

Lembrou-se também, e sua mente cansada já era agora um emaranhado de pensamentos rodeados por lembranças, do feriado de Corpus Christi. Palavras estranhas, pensava quando menina. E o latim assim, incompreendido por sua mente infantil, ganhava ares de severidade. Deus devia ser mesmo um homem muito severo, pensava ela.

Latim mesmo, só viera a aprender anos depois, quando já jovem cursara Letras na universidade, daí passara a entender o significado daquela expressão: “O corpo de Cristo”.

“O corpo de Cristo”, repetia para si mesma. “O corpo de Cristo... O mistério glorioso do corpo de Cristo”.

Lembrou-se então, da pergunta sagaz e ao mesmo tempo inocente que fizera certa vez à mãe, que lembra, irritou-se com tamanha insistência de sua parte: Mãe, o que é o corpo de Cristo? Como ele se transformou assim, como o padre diz? O que é o Corpo de Cristo, mãe?

E já não se sabe se estava mais ali, quando finalmente deixou cair ao chão o álbum de fotos preto e branco. Na página aberta, estatelada no chão, uma foto dos belíssimos tapetes, tradição nas celebrações de Corpus Christi. Em sua mente, uma última imagem, nítida como foi outrora, forte, como seria ainda hoje: a do mendigo coberto de chagas, que viria depois da missa, encolhido ao seu cobertor, numa das vielas que davam na igreja e que jurou à mãe, abismada, ser ele sim, o verdadeiro corpo de Cristo!

“O corpo de Cristo”, repetiam em badaladas aterrorizantes, os sinos da igreja. “O corpo de Cristo!”

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