O grande sambista brasileiro Bezerra da Silva eternizou em sua canção a frase: “Malandro é malandro e mané é mané”. Nada mais verdadeiro. E o malandro, esse personagem tão fascinante e universal, também tem, claro, os seus representantes japoneses. Ou mais precisamente, um representante que merece nota. Trata-se de Shoji Morimoto, o japonês internacionalmente conhecido por ganhar a vida... não fazendo nada.
Um talento que, diga-se de passagem, faz inveja até a político em Brasília, que deve estar se perguntando como o japonês teve uma ideia tão batuta como essa. Pois é: segundo o próprio Morimoto, em uma de suas muitas entrevistas, ele teve a referida ideia quando trabalhava numa editora – ambiente no qual era constantemente acusado por colegas e chefes de não estar fazendo nada no serviço. E, em vez de irritar-se com isso ou cair em depressão, ele saiu do trabalho decidido de que, daquele momento em diante, o “fazer-nada” seria o seu ganha-pão. E assim o fez.
Hoje, com meio milhão de seguidores no Instagram, Morimoto fatura dez mil iénes por hora (cerca de setenta dólares), alugando o seu tempo para quem quer que precise de um “companheiro para qualquer atividade”. Melhor dizendo: para que a pessoa pegue no batente enquanto Morimoto fique lá, próximo, parado e de papo pro ar. Precisa limpar a casa? Cortar a grama do jardim? Ou escrever uma crônica, enquanto alguém fica perto, dando “apoio moral”? Bem... Morimoto é o cara no quesito “ficar plantado como árvore”.
E engana-se quem pensa que, para esse tipo de serviço prestado, a clientela é pouca. Nosso bravo Morimoto, como escrevi acima, fatura alto por hora “trabalhada” e chega a ter até dois clientes por dia. Enfim, um negócio da Chin... digo, do Japão!
Agora, Morimoto deixa um aviso, principalmente aos solitários de plantão: seu trabalho é não fazer nada... e só. Portanto, não venham com propostas mais ousadas. Porque, ouçam bem, Morimoto é um malandro responsa, pai de família e tudo. Que segue ao pé da letra a frase dos Corleones: it’s strictly business (é rigorosamente um negócio)! Sem assanhamentos, portanto!
Confesso: sou fã da figura. E digo mais: se um dia nacionalizar-me japonês (adquirindo o direito a voto), vou fazer campanha para colocar Morimoto no parlamento! Afinal de contas, se é para fazer o mesmo que os políticos profissionais, por que não eleger alguém que assumidamente não faça nada?
Ou, caso não enverede pela carreira política, para a qual possui inegável vocação, o “bom malandro japonês” poderia tornar-se um palestrante. Cacife ele tem: até escreveu um livro sobre o assunto (intitulado, numa tradução aproximada: “Alugo-me: o homem que não fazia nada”)! Quem sabe, numa de suas viagens pelo mundo para falar dos benefícios do ócio profissional, ele viesse a visitar Brasília para receber uma medalha qualquer pelos serviços prestados à malandragem universal. Eu apoio totalmente: pois se até Bolsonaro já outorgou uma medalha a si mesmo, por que não reconhecer nosso talentoso Morimoto?
Sim, senhores: medalha. E, se possível, também um monumento na Esplanada. Pois Shoji Morimoto, este, sim, teve uma ideia verdadeiramente “imbrochável”!
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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, no Japão, na Espanha e em Portugal, é autor de dez livros, sendo o mais recente “Contos de um Brasil esquecido”, lançado pela Editora Folheando (Pará), e finalista do Prêmio Uirapuru. É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).
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