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SUB-VERSÃO

O inseto

Imperceptível, mas não haveria mesmo de chamar a atenção. Era uma reunião de escritores, afinal. Escritores demandando sobre questões práticas e importantes. Havia um evento a ser organizado, outro, do qual participariam ou não.

Escrever demanda tempo, dedicação, alma. Discutir burocracias... Ah, isso demanda muita atenção e paciência.

E por que especialmente naquela noite não dispunha nem de um nem de outro, por um instante me permiti observá-lo. Ou seria ela? Não sei seu sexo, não sei nada sobre ele, afinal. Só sei que meus olhos cansados e curiosos se desviaram por alguns instantes dos demais.

Lá estava ele, andando sobre a mesa, desta vez estrategicamente colocada ao centro da sala. Tinha asas, notei, mas andava. Talvez porque estivesse cansado do exercício exaustivo de batê-las ou porque o vento que entrava pelas janelas o importunasse. O fato é que aquele pequeno ser, caminhava.

Entre discussões quase acaloradas, textos poéticos e apresentações de novos membros, ele simplesmente caminhava.

Quem o notara, afinal, além de mim?

Enquanto o observava em sua atividade cadente e certeira de mover-se pela mesa, pensava: – E se for um espírito de um escritor morto? Kafka acaso se orgulharia desse meu delírio? E se aquele aparentemente inofensivo carregasse consigo toda a poesia do mundo, presa em suas asas, que escolhiam não alçar voo; e se suas perninhas sustentassem, com leveza absurda, todos os sonhos e ambições dos homens? Ah... os homens sempre tão cheios de si...

Tinha consciência de estar diante de escritores? Esse vocábulo tão cheio de estereótipos... Alguns deles, premiados, inclusive.

Imaginei ser um daqueles bichinhos que aparecem em noites quentes, dos quais obviamente não me lembro o nome ou espécie. Mas você, leitor, deve saber de quem estou falando.

Mas aqueles bichinhos costumam perder as asas... Esse, rebelde feito ele só, optava por não usá-las, não naquela noite quente de novembro. Queria sentir a aspereza da mesa sob suas patinhas, preso a algo tangível, ou simplesmente o fazia para não desviar a atenção do público letrado, alçando qualquer voo barulhento.

Caminhava... e com ele, meus pensamentos. Mas não se engane, que prestei atenção a tudo quanto foi dito e decidido naquela reunião, e até mesmo ao que ficou por decidir mais tarde.

Mas minha alma inquieta me permitiu também o exercício da observação daquele delicado inseto. Que ser incrível!

Fui embora sem que nos apresentássemos. Temi por ele no escuro profundo que tomaria a sala, quando a porta finalmente se fechasse. Invejei-o por um instante, em sua simplicidade quase ingênua. Quis caminhar com ele sobre a mesa, ser também eu apenas um inseto, absolutamente ciente de sua completa insignificância. Absolutamente livre!

***

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