As luzes coloridas que iluminam as sacadas das casas, prédios e lojas, bem como as árvores de Natal com seus contornos e adornos, dão pistas de que o Natal está chegando. E a sensação, pela intensidade da vida vivida, é que ele tem chegado cada vez mais cedo!
Festa cristã, para quem comunga dessa crença – ou mesmo àqueles que entram no clima, mas professam outra fé ou fé alguma – a natividade do filho de Deus é representada há 800 anos na figura do presépio, criado em 1223 por São Francisco de Assis, cuja montagem se espalhou pelo mundo e é acompanhada de muita imaginação e criatividade, por vezes inspiradas em costumes e tradições culturais locais, o que vai atribuindo ainda mais vivacidade, sentido e identidade às festividades do Natal.
Presépio – palavra do latim praesepium, cuja tradução refere-se à manjedoura, local onde Jesus teria sido colocado logo após seu nascimento – é cheio de simbologias, sinais e representações, como escreveu o Papa Francisco em sua Carta Apostólica “ADMIRABILE SIGNUM”, em 2019, sobre o significado e valor do presépio.
Nas palavras do Papa: “De modo particular, desde a sua origem franciscana, o Presépio é um convite a «sentir», a «tocar» a pobreza que escolheu, para Si mesmo, o Filho de Deus na sua encarnação, tornando-se assim, implicitamente, um apelo para O seguirmos pelo caminho da humildade, da pobreza, do despojamento, que parte da manjedoura de Belém e leva até à Cruz, e um apelo ainda a encontrá-Lo e servi-Lo, com misericórdia, nos irmãos e irmãs mais necessitados (cf. Mt 25, 31-46).”
Menino que “nasceu pobre, levou uma vida simples, para nos ensinar a identificar e a viver do essencial”; a sermos fraternos nos desafios de cada dia – não só no clima de Natal, numa pretensa tentativa de “aliviar a consciência” das omissões e maldades do ano; não aceitarmos que ninguém seja excluído e marginalizado, num mundo tão excludente e desigual; e ao exercício da empatia, em especial junto a quem mais sofre.
Família que não tinha onde se hospedar para o menino nascer, assim como muitas famílias que constroem presépios reais o ano todo embaixo de pontes, viadutos e barracas improvisadas, sem lugar para trazer seus filhos ao mundo, poder descansar, fazer suas refeições e necessidades fisiológicas. Famílias, em diversos formatos e arranjos, que enfrentam cotidianamente a fome, violência, o abandono, desemprego, a ausência de renda, moradia e escolaridade, entre tantas outras necessidades e direitos negligenciados pelo Estado e pela própria sociedade.
O presépio, segue dizendo o Papa, “narra o amor de Deus, o Deus que Se fez menino para nos dizer quão próximo está de cada ser humano, independentemente da condição em que este se encontre”. Amor cada vez mais corroído, submerso num mar de ódio, intolerância e desprezo pela vida, em que o diferente de si é execrado, odiado, alvo de violência e preconceito; e a vida vale o que se tem e a depender de quem se trata.
Na própria terra que se diz santa, o sagrado é motivo de ódio, violência e extermínio. O conflito em Gaza, longínquo e aparentemente insolúvel, representa bem essa realidade e o quão longe estamos de imprimir uma convivência pacífica, respeitosa e fraterna.
Ah, como seria perigoso se o menino Jesus resolvesse nascer por esses dias!
Mas a história segue sendo contada e fala da simplicidade de quem prega o amor incondicional; que a cada ano – quando as luzes começam a piscar – permite ser revista e reinterpretada, olhando atentamente a natividade de Jesus na figura do presépio em seus detalhes e atribuindo sentido. Sentido que materializem ações concretas e cotidianas de quem se inspira em sua história e ensinamentos...

Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo
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