Vem aí, nos cinemas, mais um filme do Godzilla, um dos personagens emblemáticos da cultura pop japonesa. E, claro, o novo filme, intitulado “Godzilla minus one” (“Godzilla menos um”, numa tradução literal), tem desencadeado uma onda de reprises da franquia nos canais de tevê do país, com o objetivo de despertar nas novas gerações o interesse pelo monstro descrito como um “réptil anfíbio pré-histórico” (ou coisa parecida).
Tenho acompanhado com o meu filho algumas dessas reprises. É divertido. Principalmente pelos efeitos visuais toscos e nostálgicos, que me remetem aos sábados à tarde de minha infância, na década de oitenta, quando o SBT do Silvio Santos exibia, além dos filmes do Godzilla, pérolas nipônicas como o Ultraman. Na época, os olhinhos grudados na tela, quando eu poderia imaginar que um dia moraria na Terra de Godzilla? A vida é mesmo surpreendente...
Mas voltemos a falar do gigante. Curioso em relação às origens do personagem, resolvi pesquisar um pouco mais a respeito. E descobri que o primeiro filme, produzido em 1954 pelos estúdios TOHO, surgiu como uma espécie de protesto em relação às armas atômicas e aos testes nucleares – que, na década anterior, haviam trazido tanta dor e tristeza às cidades de Hiroshima e Nagasaki. Na visão do diretor Ishiro Honda e do produtor Tomoyuki Tanaka, responsáveis pelo filme que deu origem à franquia, Godzilla seria uma espécie de monstro marinho que emergira das águas em virtude dos efeitos devastadores dos testes nucleares. Mas há também alguns estudiosos do filme que defendem a tese de que Godzilla seria uma representação dos “Estados Unidos da América”, que, com sua força e violência, surgia para destruir o Japão.
Particularmente, apesar de reconhecer que não é lá muito plausível, gosto bastante dessa segunda teoria. Pois, afinal, é isso mesmo que o diabólico Tio Sam tem sido para o mundo, desde que, vitorioso na Segunda Guerra, virou o “xerife do planeta”: um monstro feito de dólares que vende armas para ditadores, e depois ainda, num show de hipocrisia, posam como “libertadores” dos povos que estão sendo trucidados pelas mesmas armas fornecidas por Washington (foi assim na Síria, no Iraque, na Guatemala, na Nicarágua... enfim, a lista é longa).
Na verdade, é até injusto comparar o carismático Godzilla com a desumana política internacional do governo norte-americano. O monstro marinho, pelo menos, tinha compaixão pelos inocentes: jamais causando a morte de crianças, por exemplo, como tem ocorrido no massacre que testemunhamos (e que alguns absurdamente ainda tentam ignorar) na Faixa de Gaza.
É... o monstro ianque, perigoso e dissimulado, não para de destruir – e tudo isso, pasmem, sob os aplausos da Democracia!
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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, resiente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, no Japão, na Espanha e em Portugal. Em 2022, teve dois livros premiados no Concurso Internacional da União Brasileira de Escritores-RJ, recebendo o Prêmio João do Rio (para “Livro de Crônicas”) e o Prêmio Luiz Otávio (para “Livro de Trovas”). Foi um dos cronistas escolhidos para compor o livro didático “Se Liga na Língua - 8º Ano” da Editora Moderna (2024). É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).
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