“O senhor da guerra não gosta de crianças, o senhor da guerra não gosta de crianças...”. Tão repetitivo quanto enfático, cantava, no início dos anos de 1990, Renato Russo e sua Legião Urbana. Talvez para nos lembrar o quão as crianças são vítimas diretas das guerras insanas criadas pelos senhores poderosos. Por serem mais frágeis, acabam mortas ou tendem a ter suas vidas eternamente marcadas pelo sofrimento vivido.
Conflitos mundo afora, que de fato nunca cessaram na história da humanidade, a exemplo do atual genocídio – e é assim mesmo que deve ser mencionado – de Israel contra o povo palestino, após o ataque sofrido pelo Hamas (uma espécie de organização militar islâmica), o que tem gerado vítimas, muitas e muitas delas crianças, sejam palestinas ou israelenses.
Na terra que se diz santa, o sagrado é motivo de ódio, violência e extermínio. Um conflito longínquo que parece insolúvel, porque quem teria poder de cessá-lo “estará com outros velhos inventando novos jogos de guerra”, onde a regra é acabar com o inimigo, mesmo que se trate de uma criança!
Crianças cujo choro de dor desagua num mar de lágrimas de quem busca socorro para suas feridas; e que se soma ao grito de quem quer dizer ao mundo que não aceita que o corpo estendido nos escombros não tem mais vida. Um terror que parece sem fim, enquanto o fim não for a matança generalizada!
“... Sendo guerra santa, quente, morna ou fria...”, talvez nem importe mesmo, já que a que a guerra gera empregos e aumenta a “produção” numa sociedade de negócios, onde o negócio é contar com parceiros estratégicos em prol de interesses comuns – lembrando que a guerra é um mercado rentável numa sociedade capitalista.
“Que belíssimas cenas de destruição”, diria o senhor da guerra; além disso “não teremos mais problemas com a superpopulação”, mesmo porque quem vai morrer no front não é quem gerencia a conflito. O senhor da guerra permanece no aconchego do seu lar!
E assim segue o extermínio do povo palestino, expatriado de sua própria terra, quase à própria sorte, porque parece que sorte tem a ver com poder, cujos mandatários constroem narrativas que sustentam a guerra e alimentam o extermínio.
Por vezes, quem desconhece a complexidade do conflito entre Israel e Palestina – como parte da nossa imprensa ou mesmo pessoas comuns – endossa a narrativa vigente de heróis e vilões, ignorando o atual genocídio do povo palestino e desconsiderando que esses discursos são carregados de interesses, tanto de quem os cria, quanto quem os propaga.
Já diria um dos grandes ativistas norte-americano, Malcolm X, “se você não cuidar, os jornais farão você odiar as pessoas que estão sendo oprimidas, e amar as pessoas que estão oprimindo”.
Fato é que a faixa de Gaza virou um imenso cemitério a céu aberto de crianças, um “verdadeiro inferno”, conforme o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), tendo até o momento mais de 3,5 mil crianças mortas. As que não morreram sofrem nos precários postos de atendimento, com registros de mutilação ou procedimentos cirúrgicos sem anestesias; além de um infinito número de crianças sem acesso à alimentação, água potável, lugar seguro e paz!
Uma crise humanitária que tem mobilizado pessoas ao redor do mundo, com protestos em todo canto, protagonizando a pressão necessária pela abertura de corredores humanitários e acima de tudo, pelo cessar-fogo, algo talvez esperado que fosse encabeçado pela Organização das Nações Unidas – a ONU. Mas não tem sido!
Crianças que seguem sem infância e sem futuro, alimentando a melodia da Legião Urbana. Deveria ser apenas uma canção fictícia, de um mundo imaginário, mas não é. “O senhor da guerra não gosta de crianças...”. Não gosta mesmo!

Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo.
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