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Crônicas de um Sol Nascente

O sinal da cruz

Sou católico. E digo isso sem orgulho nem desprezo por outras religiões. É uma afirmação, nada mais; uma vez que, sendo minha família materna de origem portuguesa – como muitas famílias no Brasil –, é natural que o catolicismo faça parte desse “kit descendência”. Com os meus avós portugueses, eu costumava frequentar a igreja (quase) todos os domingos. Foram eles também que me ensinaram uma série de ritos e superstições associados ao Catolicismo. Por exemplo: não deixar que a hóstia grude no céu da boca, nem comer carne na “Sexta-feira Santa”. Também aprendi a benzer-me toda vez que eu saísse de casa; costume esse que mantenho até hoje, morando no Japão. E é exatamente a respeito deste último hábito que desejo estender o assunto.

Todos os dias, quando saio, e algum japonês ou japonesa observa-me fazendo o sinal da cruz, não é exagero dizer que há duas típicas reações de sua parte: ou me olha com estranheza, ou acelera o passo. Também já ocorreu de serem as duas coisas ao mesmo tempo.

Reações essas que, a meu ver, são perfeitamente comuns. Afinal, o Japão é, como já comentei em uma crônica anterior, um país sem grandes manifestações de religiosidade. Sim, são basicamente xintoístas; mas tal crença se limita a uma visita aos templos em ocasiões muito especiais como casamentos e nascimentos. De modo que manifestações públicas de fé são coisas raríssimas no cotidiano da Terra do Sol Nascente – o que leva, portanto, a uma natural estranheza de sua parte ao verem o meu sinal da cruz. Agora, aqui gostaria de frisar este ponto importantíssimo: apesar de estranharem, os japoneses JAMAIS, e repito, JAMAIS, atacariam fisicamente ninguém por possuir uma crença diferente da sua. Historicamente já o fizeram? Sim, mas no longínquo século XVII, era dos “cristãs escondidos”, que eram forçados a pisar sobre a imagem de Jesus para não serem torturados e/ou executados. Tal história, a propósito, foi retratada no filme “O Silêncio”, de Martin Scorsese, que, por sua vez, é baseado no belíssimo livro de Shuzaku Endo. Sim, toda essa perseguição ocorreu há quatro séculos. Hoje, porém, nenhum japonês reclama da fé alheia – exceção feita a algumas barulhentas igrejas de brasileiros e coreanos (mas aí a questão é anatômica mesmo, pois não há ouvido humano que possa suportar as gritarias vindas desses templos). Eu mesmo, certa vez, adentrei uma dessas igrejas para logo sair de lá correndo, com os tímpanos e a cabeça latejando...

Mas, voltando ao assunto principal deste texto, sinto-me em paz mantendo diariamente o meu sinal da cruz por aqui, pois sei que ninguém vai me atirar pedras por causa disso. O que, convenhamos, vendo tantos conflitos pelo mundo em nome de religiões, já é um verdadeiro milagre.

 

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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, no Japão, na Espanha e em Portugal. Em 2022, teve dois livros premiados no Concurso Internacional da União Brasileira de Escritores-RJ, recebendo o Prêmio João do Rio (para “Livro de Crônicas”) e o Prêmio Luiz Otávio (para “Livro de Trovas”). Foi um dos cronistas escolhidos para compor o livro didático “Se Liga na Língua - 8º Ano” da Editora Moderna (2024). É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).

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