Hehe, o Zé Gotinha voltou!
Criado em 1986 pelo artista plástico Darlan Rosa, sob encomenda do Ministério da Saúde, o personagem Zé Gotinha entrou no imaginário popular das crianças – e de seus responsáveis – ao longo de várias gerações. De forma lúdica, tratava de um assunto muito sério: a importância da vacinação das crianças, estendida também aos adultos, como o meio capaz de garantir proteção contra doenças infecciosas.
O Zé era pop e estrelou importantes campanhas de vacinação Brasil afora. Sua presença era certa em materiais informativos, educativos, cartazes, adesivos e de modo físico junto aos postos de saúde, em especial nos dias de vacinação em massa.
Com a soma de esforços, o Brasil construiu um sólido sistema de imunização, com protocolos reconhecidos internacionalmente, que registrava uma grande cobertura vacinal, a ponto de o país receber em 1994, pela Organização Mundial da Saúde (OMS), o certificado de erradicação da poliomielite.
Conquista que foi desmantela durante a gestão do ex-mandatário da República, colocando o Zé Gotinha de canto ao espalhar inúmeras inverdades sobre a vacinação, imprimir um discurso negacionista, avesso as conquistas cientificas e desorganizar a estrutura imunológica existente. Não à toa, o Brasil tardou a iniciar a imunização da população durante a pandemia de Covid-19 – o que contribuiu para a morte de centenas de pessoas – e vem tendo queda na cobertura vacinal de inúmeras outras doenças, como afirmou a atual ministra da Saúde, Nísia Trindade, ao dizer que o país registrou uma cobertura de apenas 40% da poliomielite em 2022.
Uma conduta criminosa que por baixo dos panos tinha outro trato, quando temos vestígios, com a quebra de sigilo imposta pelo ex-presidente sobre seu próprio cartão de vacinação, de que ele teria sim se vacinado.
Ao propagar uma narrativa fincada na liberdade de escolha do indivíduo, o ex-governo alimentava uma conduta extremamente individualista, egoísta, centrada em si; e desfocava a lógica que a vacinação é essencialmente um pacto de civilidade coletiva: a pessoa ao se vacinar protege a si e aos outros!
Bertolt Brecht – poeta alemão do século XX – dizia que “aquele que não conhece a verdade é simplesmente um ignorante, mas aquele que a conhece e diz que é mentira, este é um criminoso”. E foram muitos crimes cometidos, razão pela qual repudia-se qualquer tentativa de anistia!
Passada a tempestade, voltamos a encontrar com o Zé Gotinha, agora em outro contexto. Figura simpática, com sorriso largo, expressava sua alegria junto ao atual presidente do país, que dava o exemplo ao tomar a quinta dose da vacina contra a Covid-19 no lançamento da Mobilização Nacional pela Vacinação, ocorrido no final de fevereiro.
O Zé Gotinha está feliz, assim como nós estamos, pois ele sabe que voltará a protagonizar importantes campanhas de vacinação no país; sabe que simboliza a defesa da vida, da ciência e de um Sistema Único de Saúde (SUS) – que, para além de ter mostrado sua importância durante a maior crise sanitária da história recente –, é universal, completo em suas atenções e um direito de todos, razão pela qual devemos lutar para seu fortalecimento e ampliação.
O Zé não vai ter vida fácil, sabe que terá um árduo trabalho no combate às fake news plantadas; reconhece que será trabalhoso elevar a cobertura vacinal no país e construir uma narrativa que a vacinação é um ato de amor, responsabilidade e empatia.
Mas ele vem forte, vem firme e quer ficar. Sabe que tem com quem contar, como expressou o ministro dos Direitos Humanos, Silvio Almeida, em recente reunião na ONU (Organização das Nações Unidas): “o Brasil vai seguir a ciência”. Então o Zé vai voltar a ser pop, estrelar campanhas de vacinação e circular por aí, afinal, como disse a ministra da Saúde, “vacina é vida, vacina é SUS. É o movimento em defesa da vida, união e reconstrução, viva a volta do Zé Gotinha”, e tudo o que ele simboliza.
Hehe, o Zé Gotinha voltou!
Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo
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